O jornalista e escritor Joel Silveira tinha apenas 26 anos quando foi convocado por Assis Chateaubriand, o então todo-poderoso proprietário dos Diários Associados, para trabalhar como correspondente na Segunda Guerra Mundial. Apesar da pouca idade, não titubeou. Afinal, ele sempre sonhou em trabalhar no front. Passados 50 anos, Joel não se esqueceu ainda da recomendação feita por Chatô no dia do embarque para a Itália. ‘‘Vá, mas não morra. Repórter não foi feito para morrer e sim para mandar notícia’’, recorda.
A experiência vivida por Joel Silveira na Força Expedicionária Brasileira é apenas uma das muitas peripécias narradas em ‘‘Na Fogueira’’. Lançado pela Mauad, o livro é o primeiro volume de uma trilogia de memórias. O título faz referência aos primeiros anos vividos por Joel Silveira na então capital da República. ‘‘O livro devia se chamar Manual de Sobrevivência. O que passei no Rio não foi brincadeira’’, avalia.
Hoje, os tempos são outros. Aos 80 anos de idade e 62 de profissão, Joel Silveira atravessa a melhor fase da carreira. No ano passado, foi agraciado com os prêmios Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e Líbero Badaró, da revista Imprensa, pelo conjunto de sua obra. De quebra, embolsou R$ 30 mil em dinheiro e uma viagem a Barcelona. ‘‘Foi a primeira vez que vi tanto dinheiro junto na minha vida’’, diverte-se.
Como surgiu a idéia de escrever esse livro de memórias?
Na verdade, esse livro é mais um manual de sobrevivência que qualquer outra coisa. Nasci em Sergipe e cheguei ao Rio com apenas 19 anos. Numa parte do livro, falo das dificuldades que tive para sobreviver longe de casa. Noutra, relato os acontecimentos políticos mais importantes da época, como a instauração do Estado Novo. Cheguei ao Rio em fevereiro de 37 e, nove meses depois, Getúlio deu o golpe.
Quando você começou a se interessar por jornalismo?
Sempre fui tarado por notícia. Já em Sergipe trabalhava em diversos jornais. Só que meu pai era um sujeito conservador e nunca aprovou a minha decisão de ser jornalista. Em Aracaju, fundei grêmio estudantil, liderei greve de alunos e trabalhei em jornal operário. Meu pai ficava indignado. Ele queria que eu trabalhasse no comércio. Quando disse que viria para o Rio, até gostou. Estava louco para se livrar de mim.
Você demorou muito a encontrar emprego no Rio?
Quando cheguei, fiquei encantado com o ‘‘Dom Casmurro’’. Era um jornal literário nos mesmos moldes dos semanários franceses. Resolvi colocar um anúncio no próprio jornal. Dizia que era um escritor pobre e que aceitava restos de comida e sobras de roupa. Foi uma sensação. No dia seguinte, choveu carta na redação. O Álvaro Moreyra, então, resolveu me contratar.
Você chegou a sofrer censura do Estado Novo?
Sofri censura a vida inteira. O pior é que peguei duas ditaduras pela frente: a do Estado Novo e a do AI-5. De ditadura, eu entendo. Fui preso cinco vezes. Agora, a de Getúlio Vargas era mais inteligente. O Estado Novo simplesmente alegava que faltava papel, quando queria censurar um jornal. A censura militar do AI-5 era mais covarde. Você nunca sabia de onde ela vinha.
Como foi a experiência de trabalhar como correspondente na Segunda Guerra?
Quando fui convocado, achei ótimo. Sempre quis trabalhar no front. Fui o primeiro correspondente a chegar no Monte Castelo e em Montesse. Vi Mussolini ser preso e executado por tropas da resistência. Sempre levei minha profissão a sério. Se a notícia está na guerra, é para lá que eu quero ir. O problema é que fui para a Itália com 26 anos e voltei quatro anos depois com 40. A guerra envelhece qualquer pessoa.
Como você avalia a premiação que recebeu pelo conjunto de sua obra?
Fiquei muito honrado. Nunca fui de pleitear honrarias e premiações. Mas tenho de admitir que esses prêmios chegaram em boa hora. Já comprei um computador e, agora, vou operar a vista. O outro prêmio foi uma viagem a Barcelona. Mas temo não poder ir. Mal posso me locomover e é uma pena viajar sem sair do hotel. Se pudesse, daria um pulo em Paris.

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