Revisitar o passado em busca de respostas para o futuro. Esse é o ponto de partida para o jovem gaúcho Max Miller fazer sua estréia como dramaturgo com a peça ‘‘Replay’’. A comédia-musical leva a assinatura do consagrado diretor Gabriel Villela. O nome sugestivo do espetáculo foi retirado do recurso televisivo – replay – utilizado para rever as imagens, inclusive de pontos de vistas distintos.
A peça, apresentada na edição 2000 do Festival de Teatro de Curitiba, está em pleno circuito paranaense e fica em cartaz no Teatro Marista de Londrina, de hoje a domingo. O elenco traz nomes conhecidos como Raul Gazolla, Cláudio Fontana, Vera Zimmermann, Matheus Carrieri, entre outros.
Escritor precoce, Miller iniciou sua carreira literária aos 14 anos, com a poesia, se dedicando posteriormente ao conto. No teatro, participou do elenco de ‘‘Noturno’’, com a direção de Oswaldo Montenegro. Foi da reunião de alguns contos que surgiu a idéia de conceber o texto para o teatro. Em ‘‘Replay’’, o cinquentão Beto (Raul Gazolla), amante do futebol, faz uma viagem nostálgica e se depara com Beto 30 anos mais moço (Cláudio Fontana). Nessa descida ao labirinto do passado, ele reencontra cinco mulheres que cruzaram seu caminho. Beto faz uma revisão da vida, fazendo emergir um humor sutil e refinado.
Em entrevista à Folha2, Max Miller, 25 anos, afirma que reuniu vários contos de sua autoria impregnados com a poeira da juventude, fazendo um diálogo humorado do mundo virtual com o real. ‘‘O tempo é meu tempo preferido. Procuro pensá-lo de outra forma e isso me causa muita curiosidade’’, resume. Miller cimentou os contos numa trama, agrupando-os numa sequência de oito sketches, sem escorar na cronologia. Em seus textos, ele observa o cotidiano e seus desdobramentos trágicos, cômicos e ambíguos.
A estrutura dramatúrgica de ‘‘Replay’’ nos remete ao clássico de Nelson Rodrigues ‘‘Vestido de Noiva’’, pois em ambos os textos o real e a memória estão se roçando escancaradamente. ‘‘A carpintaria teatral da minha peça tem uma certa influência de Nelson Rodrigues’’, complementa Miller, exalando o perfume rodriguiano nas entrelinhas de seu primeiro texto teatral.
Por intermédio de um amigo em comum, ‘‘Replay’’ chegou às mãos do diretor Gabriel Villela, que somou ao texto a linguagem clown, a comédia dell’arte e a linguagem radiofônica. ‘‘A contribuição de Villela para o espetáculo se dá, principalmente, em termos de imagens’’, diz Miller. O diretor imprimiu seu selo nostálgico ao inserir elementos das novelas de rádio e do picadeiro de circo.
O futebol, pouco exorcizado nos palcos brasileiros, aparece em ‘‘Replay’’ como metáfora do jogo da vida, trazendo o sentimento de brasilidade à tona. Dentre os textos da dramaturgia nacional que evidenciam o futebol, os mais expressivos são ‘‘A Falecida’’, de Nelson Rodrigues, e ‘‘Rasga Coração’’, de Oduvaldo Vianna Filho.
A estréia de Max Miller na dramaturgia se deu com um texto de entendimento complexo, em função da ausência de lineariedade e que requer um elenco considerável (oito atores) e com experiência. Além disso, os recursos técnicos utilizados também exigiram um grande investimento. Para os produtores, ‘‘Replay’’ significou um exercício de extremos. Por isso, o autor procurou um diretor com cultura consagrada para orquestrar a obra. ‘‘O respeito de Gabriel Villela pelo texto foi incrível’’, garante o autor.
Mas ‘‘Replay’’, apesar do bilhete para revistar um passado, traz como suporte técnico um sofisticado e avançado sistema de som (Level Control System), trazido da Broadway e nunca utilizado no Brasil. Um telão com imagens pré-gravadas faz o link entre o sonho e a realidade criando um clima de fantasia, facilitando o entendimento das melhores e piores ‘‘jogadas’’ da vida desencontrada de um cinquentão apaixonado por futebol.
‘‘Replay’’, de Max Miller, direção de Gabriel Villela, música de Milton Magalhães, com Raul Gazolla, Claudio Fontana, Mateus Carrieri, Vera Zimmermann, Fernando Neves, Leopoldo Pacheco, Maria do Carmo Soares e Denis Victorazo. De hoje a domingo, às 20h30, no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241. fone (43) 338-3600). Ingressos: sexta (R$ 10,00), sábado e domingo (R$ 15,00). Sábado, a partir das 16 horas, os atores estarão no Shopping Catuaí, na área de restaurantes, recebendo os fãs para uma sessão de autógrafos.

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