Repetição e manutenção de uma só idéia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de julho de 2001
Rubens Pilegi Sá<BR>De Londrina<BR>Especial para a Folha2 
Repetir. Repetir. Repetir. Tem uma piadinha que diz que quando o artista é famoso e faz tudo sempre igual, é porque ele tem personalidade. Quando o artista não é famoso e repete sempre o mesmo trabalho, ele não tem criatividade. Quando o artista é famoso é faz um trabalho diferente do outro, ele é um experimentador. Quando ele não é famoso, e um não sai como o outro, ele não se encontrou ainda. Mudar, mudar, mudar.
Histórias: dizem que quando o físico alemão Albert Einstein veio ao Brasil, perguntaram como é que ele anotava suas idéias e ele colocou a mão na testa, apontando o dedo para a cabeça, dizendo tá tudo aqui, como se ele desenvolvesse uma só idéia a vida inteira. Vai ver que é por isso que a física quântica tornou-se uma pedra no sapato do gênio Einsten, que, ao tentar provar que a mecânica quântica estava errada em seus pressupostos básicos, acabou avalizando ainda mais a teoria alheia da imprecisão e da incerteza. A idéia do que é genial ou não pode gerar confusão!
O artista Tunga é considerado por muita gente como um gênio. Ele sabe que sua obra não pode ser ignorada de modo algum por quem se interessa por artes plásticas no país. Consagrado, Tunga é um carioca que já expôs nos principais circuitos de arte no mundo. Esperto, sabe que tanto o idealismo quanto a utopia são estratégias ideológicas para evitar o confronto presente nos extremos e paradoxos. Não é à toa que o título de seu livro é Barroco de Lírios. Delírios.
Repetir as mesmas formas, os mesmos elementos, como os sinos, as tranças, criar um mise-en-scSne, inventar um personagem verborrágico, polêmico, tem sido uma constante em sua obra. Como que saindo de algum conto de realismo fantástico da literatura da América Latina misturado com o cordel popular do nordeste brasileiro, sua obra conspira indo e vindo mostrando que é impossível sair do labirinto mítico, enigmático e surrealista dos estados alterados impostos pela criação.
Não só antropofagicamente, mas também canibalescamente, Tunga se apropria do que pertence ao outro, devorando, tomando para si, tungando o ideário alheio, criando, assim, uma tereza de cordas trançadas, como instrumento de fuga.
No recém-inaugurado espaço do Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro velho da cidade de São Paulo, o artista mostrou como é que se faz isso. Ficaram apenas os resíduos. Suficientes para imaginar um monte de situações. Para deixar irados os executivos, agentes da bolsa de valores, advogados que, em geral, entravam em pânico diante daquela bagunça toda feita pelo artista no local. Ocupando o hall de entrada todo entre os pavimentos, e mais uma instalação anexa, o ambiente ficou é mais parecido com um campo de batalha depois do combate: cobertores corta-febre, desses usados por mendigos, panelas de ferro, onde foram colocadas as sopas coloridas e distribuídas no dia da inauguração do evento, pratos de alumínio e colheres jogadas que as pessoas batiam antes de receberem as sopas, marcas de batom impregnadas no mármore restaurado do prédio todo, passadas por modelos seminuas nos enormes sinos de ferro colocados no centro da instalação (instauração, desculpe-me). Além de som, cajados gigantescos de metal que atravessavam os andares e ainda, panos e terezas jogados de alto a baixo pelo ambiente, confeccionados por atores especialmente para a performance inaugural. Além da presença de Arnaldo Antunes no vocal. Um monumento à entropia, definiu a historiadora de arte Cecília Cotrim.
Pensar a revitalização do centro de uma cidade do porte de São Paulo, é definir o acesso ao uso do equipamento urbano, não podendo deixar de se levar em consideração os contrastes e a diferença entre as camadas mais extremas do extrato social. Não era à toa o chilique dos engravatados diante do mármore importado. O ideal não se encaixa no real.
Um dos monitores do CCBB, durante uma conversa, chegou a comentar que o Banco do Brasil tinha sido ou generoso ou ingênuo demais permitindo que aquele tipo de obra fosse realizado. Ingenuidade dele! Não era um ministro da propaganda nazista que dizia que uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade? Pois é, melhor desconfiar da utopia. O trabalho de Tunga chama a atenção pelo que é, atrai a atenção da mídia, chama para si a espetacularização de um instante, sabe fazer entreter, desconhece purismos.
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