Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Todo Natal tem disco novo de Roberto Carlos. Virou praxe. Neste ano, porém, ocorreu uma exceção: o compositor está passando por uma crise pessoal e não terminou as gravações. Pela primeira vez, em muitos anos. Para compensar, a Sony colocou no mercado ‘‘30 Grandes Sucessos – Volumes I e II’’.
As coletâneas deveriam ser tratadas como um marco na carreira dos músicos, trazendo um trabalho minucioso de pesquisa, acolhendo os momentos mais contundentes, revelando detalhes desconhecidos com encartes bem trabalhados, entrevistas, gravações inéditas, enfim, apresentar o cuidado necessário para sintetizar – ou ao menos tentar – uma obra.
Quando o vinil foi cedendo lugar ao CD, a indústria fonográfica sentiu necessidade de ofertar um número maior de títulos e ampliar sua cobertura para um leque maior de compositores. As coletâneas se transformaram em uma solução de última hora, proliferando-se sem a atenção necessária, banalizando muitos trabalhos. Esse processo apresentou retorno financeiro e até hoje as compilações caça-níqueis encontram público cativo.
O ‘‘novo’’ álbum de Roberto Carlos parece ter surgido às pressas para compensar a falta do CD com material inédito. O lançamento privilegia a fase menos inspirada do compositor – a maioria das faixas é da dupla Roberto e Erasmo – justamente os últimos 20 anos. Neste ponto, obedece à avalanche de lançamentos descuidados.
Os dois volumes abrem com a inédita ‘‘Todas as Nossas Senhoras’’, seguindo uma linha sertaneja. Os anos 60, quando Roberto ganhou o título de ‘‘rei’’, são ignorados. O repertório inclui apenas ‘‘O Calhambeque’’ (Gwen-John Loudermilk, versão de Erasmo Carlos), ‘‘Não Quero Ver Você Triste’’ e ‘‘Como É Grande o Meu Amor por Voc꒒, que aparece em regravação recente. Faltam muitos hits que marcaram a carreira do compositor, como ‘‘Quero Que Vá Tudo Pro Inferno’’ ou ‘‘Namoradinha de um Amigo Meu’’. Do repertório dos anos 60 há ainda ‘‘Canzone Per Te’’ (Sergio Endrigo), que Roberto interpretou em 1968 no Festival de San Remo, na Itália, ganhando o primeiro lugar. A faixa foi gravada em 1988.
O material da década de 70 ganhou uma seleção um pouco melhor, principalmente por associar Roberto Carlos quase exclusivamente ao romantismo. O repertório traz ‘‘Detalhes’’, ‘‘Amada Amante’’, ‘‘Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos’’, ‘‘O Portão’’, ‘‘Como Vai Voc꒒ (Antonio Marcos/Mario Marcos), ‘‘Amigo’’, ‘‘Cavalgada’’, ‘‘Outra Vez’’ (Isolda) e ‘‘Lady Laura’’, entre outras. Faltaram, por exemplo, ‘‘Como Dois e Dois’’ e ‘‘Força Estranha’’, ambas de Caetano Veloso.
Há uma sensível mudança de qualidade nos anos 80. O disco traz ‘‘Emoções’’, ‘‘Fera Ferida’’ e ‘‘Caminhoneiro’’ (John Hartford, versão Roberto e Erasmo Carlos), entre outras. O ouvinte mais atento vai sentir falta, por exemplo, de ‘‘Amante à Moda Antiga’’ ou ‘‘O Côncavo e o Convexo’’. Os anos 90 trazem várias músicas religiosas, além de ‘‘Eu te Amo Tanto’’, ‘‘Quero Falar do Meu Amor’’, ‘‘Assunto Predileto’’ (Eduardo Lages/Paulo Sérgio Valle), ‘‘Alô’’ e ‘‘Mulher de 40’’.
Roberto Carlos passa por um momento difícil que pode significar mudanças em sua carreira – como a tendência, cada vez mais presente, de gravar músicas religiosas. Mesmo não apresentando, nos últimos anos, a qualidade das produções mais antigas, Roberto Carlos é um compositor importante na história da MPB. Seria um momento oportuno para sua obra ser compilada com mais seriedade.

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