Repertório de Joshua Redman no Free Jazz vai dos Beatles a Gershwin
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segunda-feira, 04 de outubro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 05 (AE) - Um dos maiores fenômenos do jazz moderno, o saxofonista Joshua Redman vem ao 14.º Free Jazz Festival com um desafio maior que sua reputação: desfiar no palco, com um quarteto, clássicos da canção popular americana, de George Gershwin aos Beatles, de Bob Dylan a Irving Berlin. "Acho que não há limites para o repertório do jazz, exceto os que a imaginação impõe", disse o saxofonista de 30 anos, em entrevista por telefone, na segunda-feira. "O jazz é o único limite; a improvisação nos dá a excitação, a transparência, o entusiasmo", afirmou o músico, que se apresenta com um quarteto no dia 17, às 22 horas, tocando com um pianista (Elon Goldberg), um baixista (Ruben Rogers) e um baterista (Gregory Hutchinson).
O ecletismo de Redman já é bem conhecido, mas também seu rigor e coerência. É tão badalado que já virou até marca de bocal de saxofone. Participou da trilha de filmes como "Kansas City", de Robert Altman, e "42nd Street Vanya", de Louis Malle. Formado em Yale e Harvard, de fina formação musical, filho do saxofonista Dewey Redman (outro grande músico), foi por causa de Joshua e outros garotos de sua geração - Christian McBride, Nicholas Payton, Roy Hargrove e os irmãos Marsalis - que se cunhou o termo "Young Lions". Que acabou servindo para designar músicos bem-vestidos, instrumentistas irretocáveis, mas que apresentariam uma música desprovida de sentimento. Não à toa
eles rejeitam o rótulo.
"Não acho que essa história de young lions tenha algum significado, é só um slogan de marketing", diz o saxofonista, explicando que o termo, inicialmente, serviu para designar jovens músicos que tinham um pé na tradição. "É por isso também que eu não acho que esteja entre eles, já que para mim a tradição é só mais um caminho", afirma, emendando: "O jazz assume muitas linguagens". Redman não está brincando. Entre suas referências musicais, além de gente como Sonny Rollins, Dexter Gordon e John Coltrane, estão rappers como Run DMC, Cool J., Grandmaster Flash, Sonic Youth e - o seu preferido - Public Enemy. "Gosto da urgência da música deles, de sua profunda ligação com o som das ruas, de sua consciência do fato de serem negros", diz Redman.
Multiinstrumentista (especialmente bom no sax alto), Joshua Redman explodiu no mundo do jazz no começo dos anos 90. Em 1991, ganhou o primeiro prêmio no prestigioso Thelonoius Monk Institute of Jazz, numa competição de saxofone. Já saiu dali com um contrato com a Warner. Filho de um saxofonista e de uma bailarina, tinha largado o curso de direito em Harvard para seguir os passos do pai e já se revelava, na estréia, incontrolável. "Joshua Redman" (Warner), que gravou em 1992 (com Kevin Hays, Mike LeDonne, Christian McBride, Paul LaDuca, Gregory Hutchinson, Clarence Penn e Kenny Washington), era ousado: reunia standards como "Trinkle Tinkle", de Thelonious Monk, a "I Got You" (I Feel Good), de James Brown.
Em 1993, apenas dois anos após ganhar o concurso de saxofones, estava na estrada com o grande baixista Charlie Haden
o pianista Kevin Hays e o baterista Greg Hutchinson (velho parceiro, com quem virá ao Free Jazz). Em seguida, gravou com o guitarrista Pat Metheny, Charlie Haden e o lendário baterista Billy Higgins. Tinha apenas 24 anos e se mostrava à vontade também no palco. Mais adiante, já estava em nova turnê com o pianista Brad Mehldau, o baixista Christian McBride e o baterista Brian Blade. Charlie Haden tinha razões também emocionais para tocar com o filho de Dewey Redman. O pai do saxofonista foi um dos principais integrantes de sua Charlie Hadens Liberation Music Orchestra, nos anos 70. Mas é preciso lembrar aqui que pai e filho têm muito pouco a ver um com o outro.
Joshua cresceu separado de Dewey e seu estilo nem remotamente lembra o do pai, que tocava basicamente sax alto. Joshua toca com igual desenvoltura sax tenor, sax alto, clarineta e musette). Joshua cresceu em São Francisco com a mãe, enquanto o pai vivia em Nova York. Com 5 anos, estudava piano e guitarra. Com 9, passou para a clarineta. Mais tarde, foi em direção ao sax tenor. Quanto à música, diz que ouve muita coisa e sua condição de ouvinte não se distingue da de outras pessoas. "Ouço rádio, vejo na MTV", ele conta. "A música está em todo lugar e é a música que ouço que impulsiona minha criatividade", afirmou.
Ele se mostra meio cético quanto às inúmeras iniciativas de músicos americanos de fundar escolas de jazz para crianças. "Eu aprendi em jam sessions, tocando, na prática", diz. "Não acredito muito em aulas teóricas para crianças; o mais importante é a performance, é ouvir a música". Redman tocou recentemente numa homenagem a Clint Eastwood (que dirigiu Bird, em homenagem a Charlie Parker), com músicos de diversas gerações
em Nova York. Uma de suas atividades extramusicais é a participação em trilhas sonoras. Algo que ele espera retomar em breve. "É um grande desafio", afirma. "Eu realmente amo o cinema e a maneira como a música pode relacionar-se com a imagem é algo que me interessa bastante".
Foi com o mesmo time de "Joshua Redman" (Haden, Mehlday e McBride) que Joshua gravou "Mood Swing", seu primeiro disco feito apenas de composições originais. Esse disco foi a base do show que fez no Brasil, em 1994. Logo depois, surgiu um disco também muito festejado do saxofonista: "Spirit of the Moment", gravado no Village Vanguard de Nova York em 1995 com o pianista Peter Martin, o baixista Christopher Thomas e o baterista Blade. Com "Spirit of the Moment", os paralelos com Sonny Rollins ficaram mais evidentes, principalmente em faixas como "My One and Only Love" e "St. Thomas". Ele conquistava, com esse álbum, uma espécie de rara unanimidade, mesmo entre os críticos que são avessos às novidades nos discos de jazz.
Atualmente, tem um disco novo na praça, "Timeless Tales" (For Changing Times), de 1998, álbum no qual já adianta parte do que será o repertório do Free Jazz. O disco inclui coisas como "Love for Sale" (de Cole Porter), "Summertime" (George Gershwin), "The Times They Are A-Changin" (Bob Dylan) e "Eleanor Rigby" (Beatles). O estilo é às vezes experimental, com elementos de atonalidade, e muitas vezes mais melódico. Inclui, segundo a crítica, traços de Coleman Hawkins, Lester Young, John Coltrane, Sonny Rollins, Dexter Gordon e outros mais contemporâneos como Joe Lovano.
Joshua Redman lembra bem da noite em que foi ovacionado no Free Jazz Festival, em 1994. Diz que, desde então, ansiava por voltar ao País. "Tive uma grande temporada e espero repetir as boas apresentações", afirmou o músico, que também disse conhecer e apreciar a bossa nova brasileira. "Mas eu conheço muito pouco e não gosto de falar sobre o que não conheço bem", acrescentou.


