ReproduçãoAvenida da Cidade Velha: esforço de recomposição do passado gloriosoQuando as bombas nazistas começaram a cair sobre Varsóvia, em setembro de 1939, a cidade tinha quase 1,3 milhão de habitantes. Cinco anos e quatro meses depois, o Exército Vermelho cruzou o Rio Vístula para liberar a cidade dos nazistas. Era janeiro de 1945, e restavam ali apenas 700 mil habitantes. Mais da metade da população da cidade tinha morrido durante a guerra. Pelo menos 85% das construções foram reduzidas a entulho.
De lá para cá, a cidade foi inteiramente reconstruída. Mas a velocidade da reconstrução e o senso estético dos stalinistas não contribuíram para tornar Varsóvia uma cidade especialmente agradável.
No centro, a monotonia dos edifícios de concreto pré-fabricados, típicos da arquitetura do pós-guerra, só é quebrada por um edifício absolutamente monumental, o Palácio da Cultura e Ciência. Obra de Stalin, o Palácio ocupa o maior e mais alto prédio da cidade, um ‘‘presente’’ da União Soviética aos poloneses contruído no início dos anos 50.
Há quem diga que o principal objetivo de Stalin com o palácio, inaugurado com o seu nome, era manter o centro da capital polonesa ocupada por tropas soviéticas, teoricamente alocadas ali apenas para a construção do edifício.
Depois de subir 234 metros e chegar ao terraço localizado no 30º andar, fica evidente que o objetivo de Stalin era marcar a presença soviética no coração da cidade. O terraço, hoje aberto à visitação turística, dá vista para toda Varsóvia e fica difícil duvidar de que aquilo tenha sido utilizado como torre de observação e controle da cidade.
Cheiro de tinta O melhor de Varsóvia, no entanto, fica alguns quilômetros ao norte do Palácio da Cultura, na Velha Varsóvia, conhecida como Stare Miasto. O conjunto, que compreende algumas dezenas de quarteirões, hoje figura na lista da Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade e abriga réplicas perfeitas de prédios datados dos séculos 17 e 18, destruídos durante a guerra e reconstituídos a partir de pinturas e desenhos da época.
Na entrada principal para a Cidade Velha, do lado direito, fica o Castelo Real, o mais imponente dos monumentos reconstruídos na Cidade Velha.
Logo no início da visita, fotografias mostram a situação do castelo logo depois da guerra, quando nada se erguia a mais de um metro do chão. Os nazistas arrasaram o prédio em 1944, em represália ao Levante do Gueto de Varsóvia, um dos episódios mais sangrentos da guerra, ocorrido em 1943, quando poloneses, muitos deles judeus, confinados em guetos dentro de sua própria cidade, rebelaram-se contra a dominação alemã.
Ainda que o Palácio e as construções da Cidade Velha cheirem a tinta fresca e tudo ali tenha um certo ar de cenário, é impossível não se emocionar com o esforço de recomposição do passado glorioso, traduzido em centenas de afrescos, guirlandas, candelabros, entalhes e pisos restaurados com minúcia comovente por artistas e artesãos poloneses.
A Cidade Velha de Varsóvia, no entanto, é um pálido aperitivo do que se pode ver depois de uma bela viagem de trem de um pouco mais de três horas para o sudoeste. Depois de 292 km de belíssimas paisagens rurais, está Cracóvia, uma cidade medieval que passou praticamente incólume pelas duas guerras mundiais.

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