São Paulo, 05 (AE) - Desde que foi publicada pela primeira vez, em 1587, a epopéia do mago e ilusionista Johann Fausten sofreu tantas adaptações que ninguém mais sabe se o Doutor Fausto é trágico ou cômico. Marlowe o fez encontrar-se com Mefistófeles para ouvir do demônio que o inferno é aqui mesmo, numa antecipação da filosofia existencialista. Goethe só fez ampliar essa discussão, mas o cinema reduziu a tragédia de Fausto à dimensão de espetáculo em filmes de Melis, Murnau e Gustaf Grundgens - para não falar das duvidosas óperas de Gounod e Berlioz.
A partir de amanhã (06), no Sesc Consolação, em São Paulo, o diretor Gerald Thomas apresenta a sua versão da história, criada há três anos para o Festival de Curitiba. Chama-se "Nowhere Man". Como a canção homônima dos Beatles, fala de um pobre diabo que não pertence a lugar nenhum. A nova versão está sendo chamada pelo diretor de "unplugged". Ou seja
não tem fios porque não há nenhum refletor iluminando o ator Luís Damasceno. Também não há cenário porque a ação se passa numa terra devastada, onde Fausto acerta as contas com o demo. Fausto, no caso, é um ator desterrado, filho de bailarina com gigolô. Entendeu?
Se você acha extravagante, lembre-se que a versão de Grundgens foi vista como alegoria beat nos anos 60. Mefistófeles poderia ser o vaqueiro John Wayne, Fausto tinha o ar triste de James Dean e a mocinha ingênua e nervosa devia muito a Marilyn Monroe. Ainda não entendeu? Está bem: o Fausto de Gerald Thomas é um grito de revolta contra os artistas vagabundos que entregaram a alma ao diabo. Lixo cultural - O Fausto de Thomas foi soterrado por toneladas de junkie culture, pela cultura de massa, pelo ready-made de Duchamp e todas as porcarias que foram parar em museus em nome da arte. Mefistófeles fez dele o bobo de sua corte, o idiota que trocou a alma por 15 minutos de fama, sufocando o nowhere man com a padronização do inferno, destruidora da cultura e de tudo o que era historicamente original. O homem da Europa unificada, da Internet, é soterrado pela Massenpsiche nessa peça que, encenada na Croácia, fez o diretor compreender que a única possibilidade de montagem era essa mesma, num palco despojado que desagrada ao hedonismo neolaico dos consumidores de moda. Música e dança - Ao Fausto de Thomas só resta uma mesa, que sua mulher quer vender inventando propriedades mágicas para o objeto (a roda de Duchamp). Isolado, o nowhere man transforma-se em cão e tenta escapar por intermédio da música e da dança. Eles são culturalmente intercambiáveis. Dependem de bom treinamento e condicionamento, têm comportamento somático e não resistem às conquistas do desenvolvimento.
Mefistófeles, que inventou tudo isso, está surdo e em farrapos. É um pobre diabo como ele. Ou seja, Fausto perdeu seu único interlocutor. "Era só prestar mais atenção a Andy Warhol para ver no que essa história de cultura pop ia dar", observa o diretor, culpando os artistas pelo lixo cultural que desabou sobre nossas cabeças em nome da palavra de ordem do século: consumo.
"Foram eles que colocaram em dúvida a própria arte", acusa, lembrando que o urinol de Duchamp representa o marco zero dessa decadência. "A arte começou a olhar para o próprio umbigo e o público passou a desconfiar dos artistas", conclui. Se tudo pode ser arte, então nada é arte. Assim, a máxima de "Nowhere Man" não poderia ser outra além de uma paráfrase de Oscar Wilde. "A gente realmente mata tudo aquilo que ama", diz Thomas.
Fraco demais para fazer um pacto com o demônio, seu Fausto é uma mutação antropológica, fruto do massacre hediondo da cultura de massas. Ainda fascinado pela falsa retórica artística, esse Fausto se revolta. Mas é inútil. Thomas parece interessado em discutir mesmo personalidades esquizóides. Na sua montagem alemã de "Moisés e Aarão", de Schoenberg, fez do herói uma extensão da esquizofrenia do autor. "Ele queria ser Beethoven e, ao mesmo tempo, conquistar as massas", fulmina.
Na ópera, Aarão quer dar uma forma concreta ao pensamento religioso de Moisés e avilta a idéia de Deus, tranformando-o num bezerro de ouro. "Eu encenei mesmo foi o dilema de Schoenberg com um elenco de 220 figurantes seguindo os truques de Aarão numa sala de edição", conta, orgulhoso da obra mais ambiciosa que dirigiu até hoje. Aarão, videomaker, mágico da nova era, não é menos infeliz do que seu Fausto, garante Thomas. Um avilta os ideais religiosos. Outro avilta os ideais artísticos.
Entre um e outro há lugar para os membros da resistência. Eles estão no novo espetáculo de Thomas, "O Ventríloquo", com estréia prevista para dezembro, provavelmente no Sesc Vila Mariana. A ação se passa no ano 2049 (comemorando o centenário da Liga das Nações). O mundo está cheio de ventríloquos mexicanos e chineses, que servem de veículos para a expressão oral de subversivos, caçados pela milícia antiintelectual como em "Fahrenheit 451". O resto não é difícil imaginar. Processo fashion - Continuando a militância contra a cultura de massas, Gerald Thomas retoma no primeiro semestre uma de suas peças mais elaboradas, "O Processo", baseada em Kafka. Joseph K., o infeliz funcionário que acorda um dia para ser levado à prisão sem motivo aparente, vai parar no mundo fashion nesta nova versão. "Nesse mundo que todos os anos troca de cor, decretando que agora é cinza e depois é rosa, Joseph K. encaixa-se perfeitamente", justifica o diretor, que encenou a peça "Raw" (Cru, anagrama de War, Guerra) durante o bombardeio da Otan sobre Belgrado.
Como de costume, ele está envolvido com dezenas de outros projetos pelo mundo todo. Sua montagem de "Tristão e Isolda" cumpre a terceira temporada em Weimar, após viajar pelo Japão. Com a compositora romena Adriana H”lsky ele prepara a peça "Schutz" (Proteção), baseada num artigo escrito pelo dramaturgo francês Jean Genet e publicado há anos no jornal "Libération". É uma bomba sobre a questão palestina, que vai abrir o próximo século como uma ópera que resgata o compromisso ideológico. Como a cultura de massas tem mandamentos internos que a impedem de ser moralista - considerando que o consumo iguala a todos na lata de lixo -, pode ser um bom começo de milênio.
Se a montagem de "Aarão e Moisés" de Thomas pretendia ser uma discussão também ideológica sobre a liberdade do homem, a nova ópera de Gerald Thomas com o compositor americano Philip Glass também vai romper com os ouvidos domesticados. Schoenberg partia do princípio de que toda obra de arte é uma representação subvertida da obra concebida pelo artista. Assim, Aaarão, homem prático, consciente de sua missão com o povo israelita, decidiu fazer o que Moisés considerava inconcebível: representar Deus como um bezerro tosco de ouro. Thomas e Glass resolveram embarcar em outra viagem escatológica. Foram resgatar Chaucer e seus "Contos de Canterbury". Mudança radical - A Volksoper do Theater an der Wien, na áustria
vai ouvir pela primeira vez arrotos e manifestações de aerofagia explícita numa partitura de Philip Glass, um educado budista de origem judaica. "Stokes Howell, o autor de "Upstream", vai assinar o libreto", revela. "Estamos vivendo uma nova Idade Média com as cidades sendo invadidas pelas favelas", analisa Thomas, justificando a escolha de Chaucer e anunciando a fase novíssima da carreira de Philip Glass. "Desde a trilha do filme "Kundun" seu trabalho sofreu uma mudança brutal", diz. "Ele precisava de um choque e um incentivo como a escatologia de Chaucer".
Glass, que, segundo o amigo, era um cruzamento de Bach e Ravi Shankar, aceitou criar música incidental grosseira para os "Contos de Canterbury". "Os trombones soltam gases e o fagote imita um arroto", conta. Michael Riesman, fiel colaborador de Glass, mais uma vez assume a direção musical da ópera. Homem moderno - A profusão de projetos, realizados concomitantemente, não apavora Thomas, ele mesmo um homem culturalmente desterrado como o nowhere man da peça que estréia amanhã, no Sesc Consolação. "Não saberia fazer diferente, porque estou sempre desenhando e projetando novas peças". Tantos temas merecem tratamento que um só espetáculo, segundo Thomas, seria insuficiente. "Iria durar horas e as pessoas não teriam paciência para ouvir tudo de uma vez", justifica.
A remontagem de "Nowhere Man" representa, de certo modo, uma tentativa de retomar o trabalho de sua Companhia e àpera Seca, criada em 1986 com a montagem de "Electra Com Creta" e desenvolvida com o consórcio de atores como Beth Coelho e Luís Damasceno. Serviço - "Nowhere Man". Drama. Direção de Gerald Thomas. Com Ludoval Campos e Camila Morgado. 4.ª e dom., às 19h; 5.ª e 6.ª, às 19h e 21h30; sáb., às 21h30. Dur. 80 min. R$ 10, 00. Sesc Consolação - Sala Ímega (R. Dr. Vila Nova, 245, tel. 234-3000). Até sábado.

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