O arquiteto Oscar Niemeyer deixou a prancheta um pouco de lado nos últimos dois anos. Passou a maior parte de seu tempo em frente a um computador. Sem fazer barulho, ele escreveu sua autobiografia ‘‘As Curvas do Tempo’’, que está sendo lançada pela Editora Revan. O livro conta a trajetória de Niemeyer, da infância no bairro das Laranjeiras, no Rio, até os dias de hoje. ‘‘Fui escrevendo sem nenhuma pretensão. Mas quando alguns amigos descobriram meu projeto, me incentivaram muito para publicá-lo’’, conta Oscar, responsável pelos projetos arquitetônicos de Brasília, Sambódromo no Rio de Janeiro, sede da ONU, em Nova York, entre outras construções em todo mundo.
Os direitos da autobiografia de Niemeyer já foram adquiridos por editoras de França, Espanha, Itália, Inglaterra e Estados Unidos. A previsão é que o livro seja lançado nestes países no início do próximo ano. ‘‘Acho que tem muita gente interessada em saber um pouco mais de minha vida’’, brinca o arquiteto, que está com 90 anos. Demonstrando muita lucidez, Niemeyer tem outro projeto na gaveta: ele está acabando de escrever um livro sobre ficção. A obra retrata a história de um professor universitário em tempos da ditadura militar no Brasil. Sobre este projeto, no entanto, Niemeyer procura ser mais comedido. ‘‘Não quero falar muito pois não tem data para ser lançado’’, desconversa Niemeyer durante a entrevista realizada em seu escritório em Copacabana, no Rio de Janeiro.
O que o motivou a escrever sua autobiografia?
Oscar Niemeyer - Nada em especial. Quando comecei a escrever, há quase dois anos, não tinha nada definido. Mas depois que alguns amigos ficaram sabendo do projeto, não me deixaram mais em paz. Insistiram em publicá-lo. E como gosto muito de escrever acabei me entusiasmando. Daí resolvi fazer um apanhado geral de minha vida. Acho que tenho muitas coisas pra contar. Neste livro vou relatar desde a minha infância no Rio de Janeiro até os dias de hoje.
Quais passagens de sua vida foram privilegiadas no livro?
Niemeyer - As dificuldades que encontrei ao longo da vida. Os projetos mais importantes que fiz. Como por exemplo, a construção de Brasília, o prédio da ONU, nos Estados Unidos, o Parque do Ibirapuera e o Memorial da América Latina, ambos construídos em São Paulo. Também vou enfatizar a minha infância no Rio e quando surgiu o meu interesse pela arquitetura. E detalhar minhas viagens pelo exterior, onde encontrei um clima de solidariedade entre as pessoas. Procurei contar minhas histórias de uma maneira bem fácil de ser entendida pelos leitores.
O senhor já tinha outras experiências no mercado editorial?
Niemeyer - Só havia escrito alguns livros didáticos sobre projetos arquitetônicos. Mas literário, este é o primeiro. Gostei muito da experiência. Tive a oportunidade de recordar momentos marcantes de minha vida. Foi uma sessão nostálgica. Por isso, não quero mais parar. Resolvi escrever um livro sobre ficção, que ainda não tem data para ser lançado.
O senhor pretende acompanhar o lançamento de sua autobiografia nos outros países?
Niemeyer - Pretendo sim. É uma forma de retribuir o carinho e reconhecimento que as pessoas têm em relação ao meu trabalho. Acho que ainda tenho disposição para viajar. Vai ser muito bom reencontrar pessoas amigas que tenho no resto do mundo. Só que não estou criando grandes expectativas. Se for sucesso, tudo bem. Caso contrário, não vou ficar frustrado. Não tenho mais idade para isto.
Aos 90 anos, como é o seu ritmo de vida? O senhor tem outros projetos voltados para arquitetura?
Niemeyer - Trabalho diariamente no meu escritório das 9 às 21 horas. Lá, almoço e janto. Também reservo um tempo para receber os meus amigos. Estou me adaptando à idade, mas ainda tenho muita disposição para meu trabalho. Não posso reclamar de problemas de saúde. O que me deixa tranquilo é contar com uma ótima equipe de profissionais ao meu lado. Estou com alguns projetos em vista, solicitados pelo prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde. No próximo ano, devem ser anunciados.

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