Durante três dias da semana passada o diretor Gabriel Villela mergulhou em exaustivas audições para selecionar os nove atores que comporão o elenco de ‘‘A Aurora da Minha Vida’’, de Naum Alves de Souza, uma produção do Centro Cultural Teatro Guaíra. Será o primeiro cartaz do Teatro de Comédia do Paraná em 1997, a princípio marcado para o mês de maio. Mais de 100 candidatos disputaram as vagas.
Villela elogiou a medida tomada pelo teatro. Além de democrática, permitiu que jovens artistas, ainda não absorvidos pelo meio, pudessem estar no mesmo patamar de disputa. ‘‘O fiel da balança pendeu para aqueles que, além de serem bons atores, gozam o privilégio de ter boa voz. O peso da música foi bem grande nesse caso’’, explicou.
Como se vê, os alunos da velha escola onde transcorre o espetáculo terão como dever cantar a bandeira, o Brasil, os professores, a natureza e tudo o mais. ‘‘A música está cada vez mais forte na minha cabeça’’, continua o diretor. Aos que se lembram e se comovem com esses hinos dos tempos tenros da infância, vai um aviso de Villela: ‘‘Podem preparar os pulsos, o coração e os Lexotans. Tenho a impressão que vem uma ‘Aurora’ cantada muito delicada, sensível, engraçada’’.
A peça, na concepção do mineiro, teria como marca as cantorias? Ele responde que ainda é prematuro dar essa certeza. Agora que as pessoas foram escolhidas nas audições é que começa a ser criado o universo mais palpável de imagens, de sensações. Villela não perde de vista que a ‘‘Aurora’’ tem uma explicitação profunda da relação do aluno e do professor.
‘‘O nosso período de vida escolar nos arremessa para uma reflexão muito grande sobre a condição até indigente do ensino cultural no País, ensino caduco, fórmula anacrônica que precisa ser repensada’’, ele diz. ‘‘Ao mesmo tempo isso faz parte da aurora da vida de todo mundo. Tem um peso na memória, na reminiscência que me interessa’’.
‘‘Atores não sabem ler’’ Os três dias de Gabriel Villela em Curitiba deram-lhe material suficiente para perceber que aqui como em qualquer outra parte do Brasil os jovens atores não sabem ler aquilo que chega às mãos. Eles têm a mesma entonação e andamento seja numa poesia parnasiana (foi passado aos candidatos um poema de Olavo Bilac) como em texto corrido.
‘‘Percebi aqui em Curitiba, como também em Salvador, que no geral os atores não sabem ler e não têm entendimento de texto. O que me deixa mais perplexo é que, generalizando o que é problemático, ele tem entrado no palco como se entrasse e sentasse na latrina de sua casa’’, dispara o diretor.
O problema da representação pode ter como componente principal a televisão, que serve como espelho para quem imagina que aquilo que se vê na tela seja teatral. Ou a falta de melhor ensino de nossas escolas, Villela não sabe donde vem o nó. Não importa - ele se admira, e muito, com a atuação dos sindicatos da categoria. ‘‘Bicho, como é que se dá um DRT para um ator que não consegue distinguir prosa de verso?’’.
‘‘Isso é complicado’’, ele próprio responde. ‘‘A pessoa sai mal preparada, mas a arte é criteriosa, o sujeito vai ser peneirado’’. Não terminam aí as críticas. A segunda fase das audições transcorreu no palco do Guairão, para solos dos atores. ‘‘Tive desde pessoas que foram magníficas na realização e no comportamento por estar num palco, até muitas que subiram sem saber o texto’’, prossegue Villela.
Outro aspecto somou-se ao mal estar do diretor - a displicência com que muitos candidatos subiram ao palco. ‘‘Não se sobe num palco como o do Guaíra de forma leviana. Não pode. O Guaíra é uma espécie de Meca do teatro brasileiro, fora do eixo Rio/SP. É um palco sagrado, como é o São Pedro, o José de Alencar, o da Paz. Tem história’’, atenta.
Tendo o privilégio de fazer audição num espaço tão importante, segundo a visão do diretor, o ator deve manter o devido respeito. O território onde nascem e pairam a magia das peças não pode ser tratado como se fosse uma calçada qualquer. Também não é o caso de partir para os exageros, mas uma coisa é necessária: ‘‘conduta interior’’.
Quem estava preocupado apenas com a performance entrou por caminho errado. Gabriel Villela pousava seus olhos de lince nesse outro lado, invisível mas contundente. ‘‘Às vezes você está observando muito mais o que está por trás, do que propriamente no que está sendo dito’’. Ele comenta que o comportamento ‘‘foi fator dominante para que eu pudesse, num processo de seleção, observar as pessoas e escolher aquelas que melhor se relacionaram com o palco. Não foram poucos os que não tiveram essa conduta’’.
‘‘Eu com 15 anos batia com a cabeça para entrar num palco. E que diferença tem entre mim e um ator daqui? Nenhuma’’, compara o diretor. Seu maior fascínio, em relação ao palco, continua sendo o Ópera de Arame. ‘‘Meu Deus, que lugar é aquele? No Ópera de Arame você começa a receber a bruxaria daquilo já na bilheteria. Acho que é o palco mais mágico que já pisei na vida. E olha que fiz teatro até em Viena’’.
Som das ruas Villela fala sem afetação, o intuito é mostrar a importância do teatro curitibano, encravado na vegetação do Pilarzinho. Para ter esse reconhecimento de território basta antes de tudo sensibilidade. ‘‘Eu sou da rua, sou das ruas de Minas. Não tenho pedigree, sou vira-lata’’, define-se o badalado homem de teatro.
Essa coisa meio notívaga, de registros dos acontecimentos cotidianos foi que lhe deu as cores sensitivas, que ele leva para suas peças. ‘‘Tento ser um contador de histórias’’, minimiza. Enquanto vai desfiando essas histórias ameniza sua inquietude. ‘‘Se não botar isso para fora, sou capaz de explodir, virar no avesso, porque tudo me comove muito’’.
A música, especialmente, invade a alma do moço. Daí que ele coloca canções brasileiras até mesmo em ‘‘Romeu e Julieta’’, que só quem viu sabe o que foi aquilo, com os atores andando sobre pernas de pau, ao lado de uma carcaça de caminhão.
Também por isso é que foi convidado por Maria Bethânia para dirigi-la em ‘‘As Canções que Você Fez pra Mim’’. A cantora convidou-o a ir para Santo Amaro da Purificação ver quermesse, pois esse era o clima que ela queria para o show. Ora, foi a mesma coisa que querer ensinar padre-nosso ao vigário, diverte-se o diretor. Ensinar quermesse para mineiro que sempre andou pelas ruas e vielas catando as mais desorientadas manifestações populares?
‘‘As Canções’’ com suas muitas luzes de pátio de igreja celebrou não só as canções de Roberto Carlos, como todas as quermesses brasileiras. ‘‘Lua Branca’’, que Bethânia canta num momento de muita delicadeza, foi escolhida por ela graças a Villela. Através dele a cantora conheceu a música de Chiquinha Gonzaga.
O encontro da baiana com o mineiro resultou num espetáculo extremamente popular, bem aceito pelo público e crítica, altas vendagens do CD ao vivo. Agora Gabriel Villela vive a expectativa de um novo show, sobre o qual nada pode adiantar. Faz mistério total, diz apenas que a decisão sobre a realização do projeto estará sendo tomada nestes últimos dias do ano. Se for concretizado, ele será ‘‘muitíssimo especial. Mas eu não posso falar ainda’’.

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