Remexendo a memória dos Novos Baianos
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de junho de 1997
Pedro Sanches Agência Folha 
Anos 70 - Novos e Baianos (editora 34, 286 pp., R$ 28), do poeta do grupo, Luiz Galvão, embora tenha jeitão de biografia, não o é. É um caderno de memórias de alguém que esteve no centro do furacão - e dele não se deve esperar mais do que isso.
Não se deve porque um biógrafo neutro trataria de investigar a trajetória do grupo, os acontecimentos que os envolveram, seus conflitos, as razões de seus conflitos. Galvão passa à margem disso tudo.
Há anos, os míticos sambistas-roqueiros tentam uma volta, quase sempre abortada. Tal interesse talvez iniba que um dos líderes remexa a massa que constituiu ascensão e queda da confraria.
Há outro fator a impedir a construção do livro como autêntica biografia. Tiradas a esmo, palavras do próprio autor são esclarecedoras: Esses
fatos aconteceram em 70, ficando registrados apenas na memória, e, como neste momento em que os relato lá se vão mais de 20 anos, posso tê-los revestido de uma dose de ficção, porque a esta altura já não sei o que foi sonho ou realidade na vida dos Novos Baianos. Está aí a questão: os NB - e a época em que floresceram obrigava a isso - foram mutcho locos, e o livro exibe isso em anarquia expressa a cada parágrafo.
Cronologias se confundem, a história segue em socos, as lembranças são difusas. Isso seria um problema, fosse o livro pretensioso - não é. É um relato emocionado da vida conturbada da arte nos 70. Compreender sua lógica tortuosa é compreender a cabeça amalucada de qualquer dos artistas que tenham vivido a barra do período militar. Tal período acaba de ganhar mais um documento.


