REMAKE DE AMOR
Nelson Sato
De Londrina
A passagem da meia-idade tem sido impiedosa com a geração 80 do rock paulistano. É o que sugerem os últimos lançamentos de alguns de seus expoentes, todos padecendo de um revisionismo tão passadista quanto a enxurrada de discos ao vivo que assola nesta temporada os ilustres da MPB.
A escassez de cabelos parece ter trazido junto uma queda no rendimento criativo dos rapazes. Em vez de compor, prefere-se regravar. As justificativas são as mais variadas. Difícil é diferenciar o trabalho que traz um conceito por trás de outro feito apenas para cumprir contrato com a gravadora, ganhar execução nas FMs e bater ponto em programas de TV.
Depois de Paulo Ricardo gravar um álbum inteiro com canções de Roberto Carlos, Ultraje a Rigor revisitar o próprio repertório e Titãs preencher a já prolongada afasia com um CD só de covers, o Ira! volta ao mercado fonográfico também atacado pelo vírus do remake. Isso é Amor (Abril Music), novo e nono álbum do grupo, desaponta aqueles que apostavam na conversão de Nasi, Scandurra, Gaspa e Jung ao experimentalismo eletrônico registrado no disco anterior.
É um apanhado de canções ao velho estilo da banda onde rock básico e baladas acústicas revestem letras e melodias alheias, selecionadas a partir de um espectro aparentemente inusitado de compositores que inclui Dalto, Ritchie, Lô Borges, a dupla Roberto e Erasmo Carlos e até Julinho de Adelaide (pseudônimo usado por Chico Buarque para escapar da censura nos anos da ditadura militar).
Isso é Amor é o primeiro título revisionista do quarteto, que exclui da discografia oficial as várias coletâneas caça-níqueis lançadas pela Warner, antiga gravadora da banda. O álbum, aliás, marca o retorno do quarteto a uma empresa fonográfica de grande porte depois de lançar dois CDs (7 e Você Não Sabe Quem Eu Sou) pelo selo Paradoxx.
Com quase duas décadas nas costas, O Ira! mantém a reputação de integridade entre público e crítica. Estreou em 1985 com o álbum Mudança de Comportamento, levantando pela primeira vez no País a bandeira mod, tendência musical e comportamental surgida na Inglaterra nos anos 60 com as bandas The Who, The Kinks e The Small Faces e ciclicamente retomada pelas novas gerações.
Cativou o público adolescente com um rock visceral, afiado, compacto e letras revoltadas. Emplacou hits como Pobre Paulista, Dias de Luta, Envelheço na Cidade e Flores em Você. Esta última foi tema de abertura da novela O Outro, exibida pela Globo em 1986. Na época, os integrantes se diziam orgulhosos da música, alegando que o Ira! era a primeira banda de rock no Brasil a colocar violinos e violoncelos numa canção.
Quem acompanha o pop inglês, porém, sempre soube que aquele arranjo de cordas fora chupado da música Smithers Johes, gravado pela banda inglesa The Jam no álbum Setting Songs. Mas o mico não ofuscou a fama de banda-com-atitude vinculada à sua trajetória, fama essa reforçada por um episódio ocorrido durante o programa de TV A Buzina do Chacrinha, no qual eles se recusaram a entrar em cena com gorros de Papai Noel.
Essa fase é lembrada no novo disco com a inclusão de Mudança de Comportamento, faixa-título do primeiro álbum. É a única de autoria do grupo. Há também Abraços e Brigas, de Scandurra, mas esta foi extraída de seu trabalho solo. O título do novo CD, que é também o refrão de uma das faixas, fornece a temática de todo o repertório.
Todas as músicas trazem, explícita ou implicitamente, fiapos de discurso amoroso. A sua voz está tão / longe ao telefone / Fale alto, mesmo grite / não se importe / Pra quem ama, a / distância não é lance / A nossa onda de amor / não há quem corte diz a letra de Telefone, de Júlio Barroso, gravado em 1983 pela Gang 90 & As Absurdettes.
Na versão do Ira!, os versos são falados por Nasi, enquanto o refrão é cantado por Fernanda Takai, do Pato Fu. É um dos pontos altos do disco, ao lado de Flash-Back, de Dalto, e A Alegria de Viver, do espanhol Ray Heredia. Além de Fernanda, o outro convidado especial do CD é Samuel Rosa, do Skank, que participa dos vocais em Um Girassol da Cor do seu Cabelo.
Aqui, a abordagem conduzida por batidas sintetizadas e pontuada por riffs de guitarra ficou aquém do arranjo de cordas imortalizado pelo mineiro Lô Borges. Chorando no Campo, por sua vez, é retrabalhada com acordes acelerados de surf-rock pela guitarra de Edgard Scandurra rivalizando com a memorável gravação ao violão de Lobão.
A escolha do repertório sofreu, como de praxe, reviravoltas. A princípio, a banda pensava em homenagear o underground paulistano da década passada garimpando canções de grupos como Mercenárias, Voluntários da Pátria, Smack e Cabine C. Mas no começo desse ano, descartaram a idéia depois de gravar uma demo incluindo uma reinterpretação de Sentado à Beira do Caminho, de Roberto e Erasmo Carlos, que foi um sucesso na década de 70 na voz do último.
A releitura arrastou todas as outras fornecendo o tema e a idéia de tributo ao disco. Partindo de Erasmo Carlos, o objeto da homenagem passou a ser os artistas que trazem uma espécie de lado B no currículo ou que atingiram o topo das paradas e que por uma circunstância ou outra caíram no ostracismo. Foi uma bela sacada.
REPERTÓRIO
Confira as faixas do CD do Ira!
- Bebendo Vinho Wander Wildner
- Teorema Renato Russo (Legião Urbana)
- Telefone Júlio Barroso (Gang 90 & As Absurdettes)
- Chorando no Campo Lobão
- Flash-Back Dalto
- Um Girassol da Cor do seu Cabelo Lô Borges
- Mudança de Comportamento Ira!
- O que me Importa Tim Maia
- Jorge Maravilha Julinho de Adelaide (pseudônimo de Chico Buarque)
- Abraços e Brigas Edgard Scandurra
- Sentado à Beira do Caminho Roberto e Erasmo Carlos
- A Vida Tem Dessas Coisas Ritchie
- Alegria de Viver Ray Heredia
- Minha Gente Amiga Santana/Ronnie Von





