RELÍQUIAS DO ROCK BRASILEIRO
Nelson Sato
De Londrina
Está tudo engatilhado. Se nenhum imprevisto empacar o cronograma da gravadora Universal, duas relíquias do rock brasileiro deverão chegar ao público até o final desse mês: Technicolor, o famoso álbum gravado pelos Mutantes em Paris, e Rita Lee & Tutti Frutti, o primeiro álbum que Rita gravou com sua nova banda depois de deixar os Mutantes.
Os dois discos são inéditos. Um é de 1970 e o outro de 1973. Na época, os tapes foram recusados e arquivados pelos manda-chuvas das gravadoras Polydor e Philips. Içados agora do baú, trazem à tona um período ainda nebuloso do pop nacional e que tem Rita Lee como testemunha-chave e uma das principais protagonistas.
Technicolor tem sido aguardado há 5 anos, desde a descoberta de uma cópia pelo jornalista Carlos Calado, que realizava pesquisas para escrever seu livro biográfico A Divina Comédida dos Mutantes. A vontade de ouvir o trabalho é tanta que, a poucos dias do lançamento oficial, cópias piratas já circulam nas lojas da Galeria do Rock, no centro de São Paulo.
Technicolor foi gravado a convite da Polydor inglesa, durante uma temporada do grupo no teatro Olympia, em Paris. A idéia inicial era lançá-lo na Inglaterra e posteriormente na França. As sessões de estúdio duraram uma semana e foram comandadas pelo produtor inglês Carlo Ohms. Além do trio original formado por Rita Lee (vocal e percussão), Arnaldo Baptista (vocal e teclados) e Sérgio Dias (vocal e guitarras), participaram das gravações o guitarrista Liminha e o baterista Dinho.
O repertório reuniu 13 faixas, entre canções inéditas e o material tocado ao vivo pelo grupo nos shows franceses. Inclui versões em inglês de Panis et Circensis, Minha Menina/Oba Shu Shu, Ando Meio Desligado/I Feel a Little Spaced Out, Desculpe Baby/Sorry Baby e Baby; além dos sucessos Bat Macumba, Maria Fulô e Le Premier Bonheur du Jour; e as inéditas El Justiceiro (em portunhol), Technicolor, Virgínia e Saravah (estas três últimas em inglês).
Segundo o produtor Carl Ohms, em depoimento colhido por Carlos Calado para a biografia do grupo, o disco foi rejeitado na época por dois motivos: o desinteresse da filial brasileira pelo trabalho e a mistura supostamente indigesta de títulos em inglês, português e francês. O veto ao álbum Rita Lee & Tutti Frutti, por sua vez, partiu do então presidente da Philips, André Midani, que teria implicado com a má qualidade da gravação.
O disco foi gestado um ano antes de Atrás do Porto tem uma Cidade (1974), considerado até hoje o primeiro trabalho de Rita Lee com o Tutti Frutti, a ponto de Carlos Calado sequer citar a existência de um projeto anterior em seu livro. A descoberta da relíquia deve-se a outro jornalista, Marcelo Fróes, que encontrou uma cópia do disco enquanto pesquisava no arquivo da gravadora Universal para a produção da caixa Ensaio Geral, de Gilberto Gil.
As sessões de gravação foram realizadas no estúdio Eldorado (já extinto), então o único da América Latina com 16 canais. Tutti Frutti trazia Rita e Lucia Turnbull nos teclados e vocais, Luiz Carlini na guitarra, Lee Marcucci no baixo e Mamão na bateria. Com exceção deste último, imposto pela gravadora para substituir Emilson (um garoto de 17 anos), a formação era a mesma que fazia uma temporada de shows no teatro Ruth Escobar, sob direção de Antonio Bivar.
O disco reúne as músicas Mamãe Natureza, Paixão da Minha Existência, Festival Divino, Bad Trip/Ainda Bem, Nessas Alturas dos Acontecimentos, E você ainda duvida/ Tutti Frutti, Minha Fama de Mau e Cilibrinas do Eden (nome da dupla formada por Rita Lee e Lucia Turnbull, que fez alguns shows em porões paulistanos antes da formação do Tutti Frutti).
Revoltada com o cancelamento do lançamento, Rita Lee chegou a invadir a sala de André Midani e promover uma quebradeira ao lado de Tim Maia, que também teria um projeto vetado. Agora, quase três décadas depois, o lançamento dos dois títulos vem corrigir micos históricos e jogar mais luzes sobre a fase prensada entre o fim do tropicalismo e a explosão da MPB oriunda dos festivais.Discos gravados, mas nunca lançados, dos Mutantes e do Tutti Frutti chegam às lojas este mês
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