Relíquias do Jeca
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quarta-feira, 20 de agosto de 1997
Cristina Duran Agência Estado 
ReproduçãoMazzaropi: ele era feio pra danar e nem ligava, dizem que até mesmo se orgulhava de ter a cara do BrasilO que seria uma simples obra de rotina para ampliar o encanamento da cozinha gerou uma descoberta no mínimo intrigante: enterrados a mais de um metro abaixo da terra estavam cerca de 30 rolos de filmes de 35 milímetros feitos por Mazzaropi há aproximadamente 20 anos. O local em questão é o Hotel Fazenda Mazzaropi, antiga casa e estúdio cinematográfico do ator, diretor e produtor de cinema em Taubaté, a 145 km de São Paulo. Na semana que vem, Carmen Ramos Roman, atual proprietária do estabelecimento, levará o material ao Departamento de Cinema da USP para que seja analisado e, se possível, recuperado.
Há 11 anos, perto do mesmo local, ao pé de uma paineira entre a cozinha e o lago do hotel, foram encontrados outros pedaços de película, mas em estado avançado de decomposição. Nem ligamos para aqueles, conta Carmen. Aquilo era quase pó. A descoberta de agora também seria desprezada, mas após um exame mais atento ela e a equipe que cuida do Museu Mazzaropi - dentro da própria fazenda -- identificaram uma cena de Jecão, Um Fofoqueiro no Céu. Filmado em 1977, com direção do próprio Mazzaropi e de Pio Zamuner, neste longa Jeca morre, vai para o céu e deixa São Pedro completamente louco. Um dos fotogramas encontrados debaixo da terra é a cena em que Jeca chega às portas do céu com sua típica camisa xadrez abotoada até em cima, calças curtas e um toco de cigarro de corda no canto da boca.
O cozinheiro do hotel fazenda, Ademar Garcia dos Santos, o seu Garcia, diz que era prática comum de Mazzaropi enterrar os restos dos filmes de que ele não gostava. Ele e mais dos 75 funcionários do hotel trabalharam com o cineasta durante as diversas filmagens da PAM Filmes - Produções Amacio Mazzaropi, naquele mesmo local, que reunia estúdio de gravação, sala de edição, alojamento para os atores e locações para os filmes. De acordo com seu Garcia, assim Mazzaropi pretendia evitar que alguém visse o material antes das estréias dos filmes.
Ficamos muito intrigados tentando entender porque ele fazia isso, conta Carmen, que agora pretende iniciar uma escavação detalhada de toda aquela área à procura de outros pedaços de película. Mazzaropi era muito supersticioso - e pão duro, conforme conta-se - e mantinha costumes tão estranhos quanto este. Na entrada da casa principal da fazenda, por exemplo, ele colocou uma estátua oca de São Pedro com cerca de um metro de altura. No seu interior, o ator e cineasta caipira guardava os roteiros dos filmes prontos para estrear. Mazzaropi era devoto a São Pedro e acreditava que, assim, garantiria bilheteria. Quando João Roman Neto comprou a fazenda, em 1985, em leilão, encontrou o roteiro inédito de Maria Tomba Homem dentro do santo.
TrajetóriaFilho de um imigrante italiano e de uma descendente de portugueses, nascido e criado na rua Vitorino Camilo, na Barra Funda, Mazzaropi tornou-se famoso por seus filmes encarnando um caipira brasileiro. Ele estreou em sua própria companhia, imitando Genésio, grande sucesso dos anos 30. O personagem valeu-lhe um convite para fazer rádio, na época o grande veículo de comunicação. Na Tupi, ele contava causos intercalados por números musicais no Programa Rancho Alegre, dirigido por Cassiano Gabus Mendes. Depois passou pela recém-criada televisão e acabou na Companhia Vera Cruz de cinema, estreando com Sai da Frente, seguido de Nadando em Dinheiro e Candinho.
Na Brasil Filmes, fez O Gato da Madame e A Carrocinha. Com Oswaldo Massaini, fez Fuzileiro do Amor, O Noivo da Girafa e Chico Fumaça. Em 1958, Mazzaropi comprou um terreno de 220 mil metros quadrados, em Taubaté, que além de residência passou a sediar a PAM Filmes. O primeiro filme feito no misto de fazenda com cidade cenográfica foi O Chofer de Praça. Mas com Jeca Tatu, ele juntou definitivamente os tipos populares que havia feito até então com o personagem de Monteiro Lobato. Entre 1959 e 1980, a PAM de Mazzaropi produziu, distribuiu e fiscalizou por todo o Brasil, 32 filmes. Mazzaropi morreu em 13 de junho de 1981, com câncer na medula.


