Religiosidade de Bernadete Amorim
Divulgação‘‘Peito aberto’’, uma das obras de Bernadete Amorim que estarão expostas na Secretaria da CulturaZeca Corrêa Leite
‘‘Caminhamos por um fio. É um fio só’’. Assim como uma linha esticada no vácuo da eternidade, sem princípio nem fim, é como a artista plástica Bernadete Amorim vê a vida. O tempo compartimentado em passado, presente e futuro não existe. Está tudo no mesmo instante. A exposição que ela abre hoje, às 18 horas, na Secretaria da Cultura, feita de objetos e instalações, fala disso. É a maneira como Bernadete vê a existência.
O olhar de Bernadete passa pelo prisma da religiosidade. Amor e dor caminham juntos, como se cumprissem as leis ditadas pela igreja católica - quanto maior o sofrimento, mais se depura a alma para uma esfera prometida. As obras trazem nos títulos o catolicismo arraigado: ‘‘Amor e Dor’’, ‘‘Colcha de Retratos - Ex-voto’’, ‘‘A Sagrada Família’’, ‘‘Lavando Feridas’’.
A artista afirma que o conjunto de suas obras é uma ‘‘confissão’’, mas não chega a ser um relato autobiográfico. ‘‘Ali estão coisas que me deixam desassossegadas’’, explica. Sua criação tem o dom de traduzir aquilo que ela imagina que seria o ideal para se viver - à medida que o ser humano busca o próximo, interliga-se, ele terá mais forças para crescer.
Um conjunto de pequenos bonecos, formando um triângulo, como se aspirasse o coração palpitante acima de suas cabeças, é a representação desse pensamento. A realidade, porém, é outra. Amar implica em dor, então o homem afasta-se do amor para não sofrer, conclui Bernadete.
A exposição contém trabalhos que não foram concluídos, mas assim também é a vida. Não existe fim para quem está vivendo; a cada momento renova-se e reformula-se a existência. Então que mandamento é esse de que somente as peças finalizadas é que podem chegar ao público? A artista nega-se a esse entendimento e colocou ‘‘Bandeja da Vovó’’. ‘‘Por que estar tudo resolvido, se nós não somos inteiramente resolvidos?’’, indaga.
Como a vida é um fio atravessando o abismo, uma profusão de fios tece e borda aquilo que está exposto. Atravessa o futuro, como o passado e o presente. ‘‘Tenho necessidade de costurar meu trabalho’’, diz. Quando cria, se deixa levar pela emoção, jamais se prende à intelectualidade do discurso. Confessa: ‘‘A obra sai antes de mim. Eu faço, depois que vou ver o que fiz’’.
Bernadete Amorim. Exposição de objetos e instalações. Abertura hoje, às 18 horas, no hall da Secretaria de Estado da Cultura, Rua Ébano Pereira, 240. A mostra permanecerá até 7 de julho.

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