Curitiba - A revista Mad foi um marco nos quadrinhos norte-americanos e brasileiros. Nasceu com a intenção de questionar os costumes da sociedade conservadora e obrigar muita gente a rir de si mesma. A brincadeira deu certo e pela Mad passaram diversos artistas, que viriam a redefinir o humor gráfico em ambos os países nos anos seguintes.
Quem tem perto de 30 anos deve se lembrar com clareza de seções como ''O Lado Irônico'', ''Dobradinha da Mad'', ''Relatório Ota'' e ''Respostas Cretinas para Perguntas Imbecis'', além das paródias de filmes e a famosa seção de cartas com leitores chatos, a exemplo de Welberson e o Anuzza. A revista, sucesso absoluto nos anos 70, seguiu com um considerável número de leitores nos anos 80 e chegou à decadência durante os 90. Agora, não se sabe qual será o futuro da mesma.
A reportagem da Folha2 entrevistou quem esteve no comando editorial da Mad do início, nos anos 70, até recentemente. Otacílio D'Assunção, ou Ota como é conhecido, falou um pouco mais dessa experiência, do atual panorama do mercado nacional e seus próximos trabalhos.


Fale um pouco do seu início, como é que começou a produzir e quando é que entrou para o mercado editorial nacional

Comecei a trabalhar com 15 pra 16 anos na Ebal, no início de 1970. Fui fazer um estágio lá e viram que eu tinha jeito e me contrataram. Fiquei cuidando da parte editorial das revistas e aprendi o que sei nessa área. Paralelamente eu comecei a publicar meus desenhos nessa mesma época. Em 72, fazia duas tiras diárias em dois jornais cariocas. Em 73, saí da Ebal e surgiu uma oportunidade de ir trabalhar na Vecchi, que ia abrir uma frente de quadrinhos e precisava de alguém pra ser o editor.
A coisa arrebentou quando saiu a Mad, aí sim meu emprego ficou garantido porque virou o carro-chefe da editora. À medida que as revista iam dando certo eles aceitavam minhas sugestões e lançaram também as revistas de terror Spektro, Pesadelo e outras que hoje são cult e revelaram um monte de talentos nacionais.

A experiência na Mad com certeza deve ter tido altos e baixos. Gostaria que você resumisse um pouco como foi trabalhar com a revista no Brasil, as coisas legais, as decepções...
Não fiquei até o fim da primeira série da Mad. Me demitiram durante a crise da Vecchi. As pessoas que ficaram no meu lugar não souberam fazer direito e as vendas caíram. Com a falência da editora a Mad ficou sem sair algum tempo, mas depois a Record comprou e voltou a vender bem. Eu trabalhei em todos os números da Record. As coisas legais era que, como vendia bem, eu tinha um bom orçamento e podia pagar bem todo mundo. O problema é que as vendas foram caindo por causa das inúmeras crises financeiras do Brasil.
Depois do Plano Collor as vendas de gibis caíram como um todo e nunca mais se levantaram. A Record largou a Mad por causa disso, não interessava mais pra eles. A Mythos pegou mas com um orçamento muito baixo que não dava pra fazer uma revista legal. É horrivel ver uma revista que chegou a vender perto de 200 mil exemplares na década de 70 ter caído à ridícula venda de 5 mil ou 6 mil exemplares por mês.

Uma vez li de você mesmo em seção de cartas que se não houvesse pagamento a revista não sairia no mês seguinte. Era mesmo assim? Como era?
Tudo que saía na Seção de Cartas era cascata. Então esse lance que eu fugi pro Uruguai vestido de mulher, que não ia sair revista se não me pagassem, era invenção. Cada hora eu inventava uma coisa, teve uma época que mafiosos tomaram conta da revista e depois matei todo mundo num desastre de avião.


Como você compara o panorama do mercado editorial brasileiro dos anos 80, 90 e atual?

O panorama editorial tá um desastre. Quando comecei as revistas não podiam encalhar mais de 20%. Hoje o encalhe que as editoras aceitam é de 80%. Isso puxa o preço pra cima e vende ainda menos. Com a concorrência de RPG (Role Playing Games), jogos, tevê a cabo e outras coisas que surgiram, o povo foi parando de comprar gibi, que não é mais a única diversão de massa como naquela época. Além, do mais a classe média empobreceu. Gibi era barato e ficou caro e o que sobrevive são os mangás e revistas de super-heróis, sustentadas pelos mesmos nerds que compram tudo. As editoras sobrevivem porque lançam uma tonelada de títulos.


Você sempre viveu desse mercado? É comum você criticar muita coisa do mercado, o que te deixa mais irritado?

Eu sempre vivi principalmente do mercado de quadrinhos. Até ontem. Aliás até hoje também. Eu ainda faço a produção das reedições do Asterix (que estão sendo passadas pro formato digital) e duas tiras, o Dom Ináfio, no Jornal do Braisl, e o Concursino, na Folha Dirigida. Faço ilustrações e tiras pra jornais de sindicatos, o que pinta. Roteiros pra revistas do (Menino) Maluquinho e vou fazer Sítio(do Pica-Pau Amarelo) também. Tenho facilidade pra bolar roteiros e trabalho como ''ghost-writer'' (escritor que não aparece nos créditos) quando pinta oportunidade. Até Recruta Zero já fiz e adaptei Paulo Coelho para quadrinhos. Escrever roteiros é moleza, eu sento pra escrever, não sei como a história vai terminar, mas vou escrevendo, é quase mediúnico.
Infelizmente o mercado tá uma porcaria. Não há condições de se criar nada novo, só publicar quadrinhos estrangeiros, que são baratos. Os talentos se dispersaram porque com as vendas baixas as editoras não podem pagar o que seria justo.


O que uma revista precisa ter para ser bem-sucedida no mercado editorial?

Pra uma revista sem bem-sucedida precisaria de um investimento que ninguém está disposto a fazer. Pra Mad voltar a dar certo precisaria que se investisse uma grana estúpida em publicidade pra chamar de volta o público, pois todo mundo pensa que acabou. E uma verba decente pra poder fazer as coisas funcionarem. Os últimos números da Mythos eram só repetições das capas americanas. Se a revista ainda estivesse saindo por exemplo eu colocaria o Alemão do Big Brother na capa. E faria uma matéria dentro. Isso custa caro. Teria que ter uma equipe maior pra ajudar na parte criativa. Não dá pra fazer tudo sozinho.


E os novos projetos? Por que saiu da Mad e o que vem fazendo?

Saí por dois motivos. Primeiro porque a Mythos perdeu a concessão. Mas eu não sei se continuaria lá. O que eu recebia estava congelado há uns cinco anos e eles enrolando sempre, as despesas aumentam, então cada vez eu conseguia fazer um produto mais pobre. Trabalhava muito a troco de nada, porque quando tinha algum número mais caprichado custava masi caro fazer. Fazendo as contas eu estava trabalhando de graça nos últimos anos.
Aí foi pra Panini (Comics, outra editora nacional). Não me contataram diretamente, mas veio uma insinuação que o cachê seria ainda menos. Trabalhar de graça já era complicado, pagar pra trabalhar eu não tenho como fazer. E eles não se preocuparam em me arranjar outra coisa pra fazer enquanto a revista ficou sem sair. Aí é muito fácil né, de repente a Panini resolve lançar, eles chamam e falam: ''Ota a gente vai pagar menos do que você recebia antes''. Daqui um ano ou dois eles perdem a concessão, outra editora pega e oferece menos ainda... Cada vez eu estava me enterrando mais e resolvi parar.
Nisso surgiu uma oportunidade de fazer um trabalho completamente diferente numa nova mídia, pagando bem, com chances de crescer. Vai ser um salto na minha carreira, as pessoas envolvidas são legais, outra cabeça, é um desafio ótimo. Então surgiu essa proposta, não sou besta, e aceitei. Não posso falar o que é porque o projeto ainda é secreto, mas vai ser uma coisa ligada às novas tecnologias onde penso botar um pouco da linguagem de quadrinhos, só que de outro jeito.

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