Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Especial para Folha2
A Antártida continua a ser o mais inóspito lugar do planeta. O grande deserto gelado, com temperaturas que chegam a 50º negativos, abrigam apenas cientistas muito bem protegidos sobre camadas e camadas de roupas e modernos sistemas de aquecimento. Imagine como era explorar este imenso inferno de gelo no início do século.
Pois é esta aventura suicida que Apsley Cherry-Garrard relata no ótimo ‘‘A Pior Viagem do Mundo’’ (Companhia das Letras). Mais do que um simples documento histórico da conquista da Antártida, ‘‘A Pior Viagem do Mundo’’ é também uma crônica de um tempo em que havia homens que almejavam a alcunha de heróis.
Apsley Cherry-Garrard foi um dos três sobreviventes da expedição de Scott à Antártida, a fim de chegar ao Pólo Sul da Terra. O ano, 1912. Em jogo estava muito mais do que um nome na História dos descobrimentos; estava em jogo também a supremacia do Império Britânico em todos os mares do mundo. Scott não contava, porém, com um concorrente inesperado, Roald Amundsen, que, a bordo do navio Fram, alcançou o Pólo Sul 34 dias antes de Robert Falcon Scott. O motivo da vitória do norueguês: o uso de esquis. Um detalhe banal mas que, num lugar como a Antártida, faz a diferença entre a vida e a morte.
Cherry-Garrard tinha apenas 21 anos quando embarcou no baleeiro Terra Nova rumo à Antártida. Era o mais novo da expedição. Seus relatos de viagem se alongam por 533 páginas de pura agonia, nas quais o fracasso de Scott, não sem certa melancolia por parte do narrador, se revela antes nos detalhes do caráter do capitão do que nas minúcias técnicas. Publicado originalmente em 1922, ‘‘A Pior Viagem do Mundo’’ é também um importante documento a respeito do imperialismo desmedido do início deste século, que fazia com que homens se arriscassem em lugares inóspitos para mostrar a supremacia de sua nação. As referências às intenções políticas da viagem são bastante sutis, o bastante, porém, para deixar transparecer no autor uma lucidez invejável.
Relatos de viagem costumam ser chatos e mal escritos. ‘‘A Pior Viagem do Mundo’’ não é nem um, nem outro. Contado como uma aventura que aos olhos de quem convive com computadores e GPS mais parece ficção, num estilo clássico que não esconde certa pretensão literária, ‘‘A Pior Viagem do Mundo’’ é um oásis entre tantos livros que hoje em dia contam escaladas inúteis e viagens ao redor do mundo sem nenhum propósito definido. Nas entrelinhas, a melancolia sincera de Apsley Cherry-Garrard ao encontrar o corpo congelado do capitão Scott a poucos quilômetros da salvação mostra que, entre estes brutos que passaram três anos num navio de madeira cercado de gelo por todos os lados, havia, acima de tudo, amizade.
Não seria exagero dizer que ‘‘A Pior Viagem do Mundo’’ possivelmente seja também o maior epitáfio do mundo. Um livro que engrandece ao contar toda a glória de uma das mais fantásticas derrotas deste século.
Em tempo: apesar da morte, o capitão Scott é considerado ainda o último homem a ter pisado no Pólo Sul geográfico da Terra.
‘‘A Pior Viagem do Mundo’’, de Apsley Cherry Garrad, Ed. Companhia das Letras.

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