Relação dos checos com Kafka é ambígua
Para o turista que visita Praga, a imagem de Kafka é oferecida, metodicamente, pelas placas municipais que registram sua passagem pelos diversos prédios históricos, exposições temporárias, citações em camisetas, chaveiros, baralhos e canecas. A relação dos checos com Kafka, porém, parece um pouco ambígua; se de um lado dele se orgulham e o reverenciam, de outro lado, ele - que era judeu, escreveu em alemão e não em checo e sempre foi um desviante - não chega a compor a imagem de um personagem nacional, dificilmente se prestando à figura de herói.
No fim da vida - ele morreu em 1924 -, Kafka alugou um apartamento no estupendo Palácio Schönborn, e ali viveu rodeado pelo jardim luxuoso, num ambiente elegante, decorado por afrescos. Foi nesse palácio que, pela primeira vez, ele vomitou sangue, sinal da morte precoce que se avizinhava. Há, finalmente, seu túmulo, adornado pela lápide cubista da família Kafka, no novo cemitério judeu. Ali, como nada se pode ver além da pedra, ali onde a imagem de Kafka não é vendida, nem convertida em suvenir, ali onde basta uma fotografia, um pouco mórbida e o que domina é o silêncio, ele parece estar mais perto.(J.C.)





