Reinventando a vida
ReproduçãoMathieu Kassovitz cria sua própria história em Um Herói Muito DiscretoDevido a um problema de distribuição, a produção francesa Um Herói Muito Discreto, que deveria ter chegado às locadoras em março, acabou atrasando e só agora está disponível em vídeo. Mas nunca é tarde para assistir a um grande filme. Inspirado no romance de Jean François Deniau, este drama dirigido por Jacques Audiard ganhou a Palma de Ouro de melhor roteiro, no Festival de Cannes, em 1996.
O filme conta a história de Albert Dehousse (Mathieu Kassovitz) um homem que, em meio aos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, decide se tornar um herói e inventa para si mesmo uma vida que só existe em sua cabeça. Em uma época confusa e na estranha Paris de 1944, Albert constrói um personagem fora do comum: transforma-se no herói de uma guerra da qual ele sequer participou. Consegue se infiltrar na Resistência, sendo chamado para ocupar um alto cargo na zona de ocupação francesa na Alemanha, usando como meio uma história absurda.
Ao contrário do filme Filhos da Guerra, da diretora polonesa Agniesza Holland, no qual um garoto judeu precisa esconder sua identidade para sobreviver, em Um Herói Muito Discreto, Albert cria uma identidade falsa para fazer de sua vida algo mais interessante. A primeira frase do filme mostra essa necessidade: Se você tem uma vida insuportável, por que não reinventá-la? Depois de ter uma infância medíocre e uma adolescência marcada pela indiferença, Albert percebe que nunca terá um passado para lembrar, uma vida para contar aos seus filhos. Após ser confundido com outra pessoa, ele resolve viver seu próprio conto de fadas, transformando-se meticulosamente de um João-ninguém a um tenente-coronel da Segunda Guerra.
O diretor Jacques Audiard se coloca como um jornalista invisível que entrevista personalidades que dissecam o fenômeno de um herói pré-fabricado. O filme convida o espectador a um delicioso exercício de ficção. Além disso, o diretor apresenta essa fantasia de forma instigante e com um extremo bom gosto estético. Misturando passado, presente e cenas de época, Um Herói Muito Discreto tem uma narrativa um pouco truncada, mas a profundidade do roteiro supera as pequenas deficiências em uma obra que reinventa a história.
É importante ressaltar que o protagonista Mathieu Kassovitz também foi premiado no Festival de Cannes como melhor diretor pelo filme O Ódio, formando com Steven Soderberg (Sexo, Mentiras e Videotape) os dois cineastas mais jovens a ganhar a Palma de Ouro. Mathieu Kossovitz dirigiu ainda Assassino(s), mas não obteve o mesmo sucesso.Lançamento da Paris Filmes. Duração: 105 minutos





