Fernando Miragaya
TV Press
Quando recebeu o convite para fazer o Dom Braz Olinto em ‘‘A Muralha’’, logo veio à lembrança de Mauro Mendonça a palavra ‘‘diacho’’. O termo era uma constante nas falas do mesmo personagem que ele havia interpretado há 22 anos, na novela da Tupi, quando Ivani Ribeiro fez a primeira adaptação da obra de Dinah Silveira de Queiroz. Só que, mesmo fazendo papel idêntico com os iguais ‘‘diachos’’, o ator de 68 anos acredita que a macrossérie traz uma adaptação diferente. ‘‘Exultei quando soube que iria fazer o Dom Braz, pois era um caminho percorrido que poderia ser renovado’’, valoriza Mauro.
Com 68 anos de idade e 44 de carreira, Mauro Mendonça é um dos atores que admitem gostar de televisão. Afinal, o veículo vem lhe dando trabalho e fama nas três últimas décadas. Mas em meados dos anos 60, quando estava no teatro e decidiu fazer novelas na ainda pouco reconhecida tevê, Mauro lembra que foi advertido e criticado por amigos e colegas de profissão. ‘‘Toda a classe teatral achou um absurdo eu sair para fazer novela, falavam até que não ia durar dois anos. Lembravam que eu era um ator de teatro’’, recorda Mauro.
Na verdade, Mauro Mendonça entrou para o teatro pensando em ser ator de cinema. Desde adolescente, ele já apreciava os longas-metragens e estava decidido a investir na carreira. Acabou fazendo TBC – Teatro Brasileiro de Comédia – e começou a se interessar pelos palcos. Foi contratado e percebeu que o teatro lhe proporcionava continuidade de trabalho. Ao mesmo tempo, a Vera Cruz, companhia brasileira de cinema, falia, reduzindo o mercado para os atores. Mauro, então, viu na tevê uma fonte de empregos promissora e chegou a argumentar com a classe teatral. ‘‘Eu dizia: ‘Perdemos o mercado cinematográfico, vamos tratar de conquistar o mercado da tev꒒, lembra.
Na novela ‘‘A Muralha’’, de 1968, você também interpretou o Dom Braz. O fato de estar fazendo o mesmo personagem agora na macrossérie facilita o trabalho?
A novela era outra coisa. Em 1968, a ação foi colocada no Século 18, e essa é ambientada no fim do 16 e início do 17. Então, a realidade de 1800, com as ‘‘Entradas e Bandeiras’’ era uma. Nesta macrossérie não são bandeirantes, são paulistas que caçam índios em busca de mão-de-obra escrava, o que fez com que eles abrissem caminhos Brasil adentro.
Mas não há como não lembrar da novela, buscar referências...
Uma das primeiras características do personagem das quais me lembrei era que Dom Braz dizia a todo momento ‘‘diacho’’. É claro que já tinha idéia do personagem, um homem patriarcal, correto, de palavra, franco. Essa estrutura se manteve, só que com mais pitadas da época da colonização.
O que mais marcou você na novela?
Naquela época nós fizemos uma das primeiras externas da história da televisão brasileira. Dava um trabalhão danado. Tinha cabos enormes, o gerador fazia muito barulho e tinha de ficar a 200 metros de distância. Havia dificuldades de figuração. Mas o que mais me marcou foi a morte do Dom Braz. Foi gravado em uma grota, o tempo estava escuro e ficou uma cena triste. Foi emocionante. Havia também uma jaguatirica que se deu bem comigo. O Dom Braz tinha uma roupa de feltro e nos dias mais frios ela vinha e dormia encostada em mim.
Fazer uma macrossérie, uma obra fechada e mais curta, é melhor do que fazer novela?
Em novela, passa-se nove meses em um período de gestação. Chega um determinado momento que cansa e se precisa de um tempo. Na minissérie, em compensação, você se aplica muito mais. O ritmo da novela é mais dinâmico. Na minissérie se tem mais tempo. Se bem que ‘‘A Muralha’’ não vem sendo fácil. Fomos a várias matas do Brasil, como Chapada dos Veadeiros, Cachoeiras de Macacu, Xerém... um calor danado com aquela roupa pesada e quente...
O Dom Braz é um personagem rude, mas você diz que ele não é vilão. Por quê?
Dom Braz é a realidade da época. As pessoas falam que ele é mau. Mas a realidade era pior. Era a lei da terra. Na nossa visão, hoje isso é maldade. O Dom Braz é um homem meio primitivo assim como a maioria era na época. Imagine, aqui no Brasil não havia nada e os que chegavam da Corte Portuguesa precisavam de mão-de-obra. Eles viam nos índios essa mão-de-obra barata e disponível. É claro que não justifica as atrocidades da época, mas os indígenas eram ainda uma incógnita para os que aqui viviam. Ou seja, o Dom Braz, assim como outros personagens de ‘‘A Muralha’’, é assim por força das circunstâncias da época. É um retrato da época.
Em ‘‘Anjo Mau’’ você contratou uma pessoa para passar o texto por causa do volume de falas que seu personagem tinha. Em ‘‘A Muralha’’ você adotou o mesmo esquema?
Continuei e vou manter isso. Um dos aspectos que atrasam muito a gravação é você estar mal decorado e ter de repetir a cena. E vejo muito isso acontecer. Inclusive comigo acontecia. Agora não. Nem preciso levar o texto para a cena. Isso me dá aquela coisa principal que é o ‘‘dizer o texto’’. Você está com o texto assimilado, conhece a cena, mas é necessário ter fluência para dominar o texto e interpretar. O resultado, para mim, está sendo excelente.
Quais são os projetos para depois da macrossérie?
Quero dar uma descansada. O curioso é que nunca faço projetos, pois estou sempre trabalhando. Volta e meia meu irmão me chama para pescar lá no Araguaia. Marco a pescaria e duas semanas depois falo que não dá, pois surgiu uma gravação ou um trabalho.

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