Reinaldo Moraes: em seu livro "Cheirinho do Amor – Crônicas Safadas", palavras ligadas ao sexo misturam-se de forma escrachada ao próprio tabu que o tema carrega
Reinaldo Moraes: em seu livro "Cheirinho do Amor – Crônicas Safadas", palavras ligadas ao sexo misturam-se de forma escrachada ao próprio tabu que o tema carrega | Foto: Divulgação



A visão sobre o humor – ou falta de humor – de Reinaldo Moraes varia conforme o humor – ou falta de humor – do leitor. Avesso a rótulos (pelo menos no discurso), seja em seu estilo ou em suas obras, o escritor paulista coleciona uma penca deles: escritor marginal, beatnik, "culto e grosso". "Há sempre algo de confessional em toda a ficção que escrevo. Conficção, eu diria. Hoje chamam isso "autoficção". Chamem como quiserem", diz, respondendo sobre o quanto os personagens dos livros têm de suas atitudes e comportamento. Quem quiser tirar suas próprias conclusões poderá participar de um bate-papo com o escritor nesta terça-feira (14), durante a programação do Londrix Festival Literário 2017, sob o tema "A Carne do Corpo, a Carne da Palavra: Literatura e Erotismo" às 20 horas, no Museu Histórico de Londrina.

Reinaldo Moraes estreou na literatura no início da década de 80 com o romance "Tanto Faz", seguido de "Abacaxi", em 1985, arrancando elogios da crítica e sendo cultuado por leitores durante anos. Virou clássico. Além disso, vendeu muito, mas muitos exemplares; algo perto de 19 mil. Números que, hoje, seria considerado um best seller. No Brasil, segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), um título que vende um total de 15 mil exemplares (não apenas em uma semana) pode ser considerado um best seller. A entidade calcula que a tiragem média de livros brasileiros é de 2,5 mil cópias. Moraes, portanto, tem esse título, ainda que, aparentemente, não o queira ou ostente.

O sucesso estrondoso, porém, parece ter tido efeito colateral. "Sumiu" do mercado editorial por vários anos, 17 mais precisamente: de 1985, com o livro "Abacaxi", a 2003, com "Órbita dos Caracóis". Enquanto leitores aguardavam algo à altura, o escritor embrenhava-se por outras bandas. "Não sei qual o motivo do hiato. Mas tem algo a ver com boemia selvagem e um monte de trabalho que envolve sentar diante dum teclado pra escrever", comenta, referindo-se, talvez, aos roteiros de televisão e cinema, traduções de livro, dentre eles, Charles Bukowski, que realizou nessas quase duas décadas. O retorno à literatura causaria alvoroço novamente.

Depois de cinco anos trabalhando em um romance, o escritor lançou, em 2009, "Pornopopéia" (com acento, já que foi concebido antes da reforma ortográfica brasileira), considerada sua grande obra. O livro de quase quinhentas páginas é uma viagem alucinada pelo underground paulistano, uma saga boêmia recheada de sexo e drogas, permeado por muita ironia. Nele, inclusive, é possível perceber nitidamente a conversa entre diferentes linguagens, característica marcante de sua escrita, além do amadurecimento e refinamento após tanto tempo de dedicação à literatura. O retorno em grande estilo, mais uma vez, é minimizado por ele. "Experiência. É o que todo romance traz pra todo escritor", se resume a dizer sobre o que o livro trouxe.

SEXO
Se a sexualidade está impregnada em várias linhas de seus livros, Moraes reuniu tudo em "Cheirinho do Amor – Crônicas Safadas", de 2014. Resultado de um conjunto de crônicas organizadas a partir da temática "sexo", são 36 crônicas que foram publicadas na revista Status, na qual era colaborador, cujo público-alvo é masculino. Neste livro, criação de expressões e palavras ligadas ao sexo misturam-se de forma escrachada ao próprio tabu que o tema ainda carrega. Em tempos de fenômenos de venda como "Cinquenta Tons de Cinza", romance erótico best seller da autora inglesa Erika Leonard James que também foi adaptado ao cinema, sua opinião, a partir de um questionamento inevitável, é direta: "Não li e não gostei." Ainda que o livro tenha atingido a expressiva vendagem de 200 mil exemplares em todo mundo, mesmo sob críticas ferrenhas quanto à qualidade literária.

Confira entrevista à FOLHA:

Foram anos produzindo "Pornopopeia", livro que é considerado de peso em sua trajetória. Tem algo vindo por aí com a mesma profundidade?
Acho que sim. Devo entregar neste ano. É um romanção curiosamente inspirado no "Pornopopeia". Quem viver, lerá. Espero eu, também, me manter vivo o tempo suficiente pra acabar de escrever essa porra.

Como você vê a produção brasileira contemporânea? Tem lido autores novos? O que o atrai hoje em dia?
Tenho lido umas coisas. O que me atrai hoje em dia é James Joyce. Ulisses.

Como você classifica a mistura de linguagens que utiliza? Estratégia ou estilo?
Ótima pergunta. Só não sei é responder direito. Talvez estilo seja uma estratégia formal para se afirmar a voz de um escritor. Não sei dizer nada além disso - no momento. Talvez tomando uma breja com você num boteco...

Você vai participar de um bate-papo no Londrix sobre literatura e erotismo. Como tem sido a participação do público em encontros com essa temática?
A turma que não dorme ou vai embora tende a se divertir. Um pouco, pelo menos.

Qual o apelo da literatura erótica hoje, considerando que existe uma abundância de imagens nesse sentido?
Tesão sempre há de pintar por aí. Na literatura isso não é diferente.

Para você, no que literatura erótica se distingue ou se aproxima da pornografia?
Gosto de pornografia, mas não me considero tecnicamente pornográfico. Apenas escrevo histórias que contém cenas obscenas, uma rima admirável, aliás. Pornografia é sexo de aluguel. Obscenidade é tesão gratuito encenado na cama. Ou no sofá, no carro, na sua imaginação - onde você quiser.

Programação Londrix 2017

Terça-feira, dia 14 de fevereiro
Sarauzinho (infantil), com os palhaços Carabina e Leleca, e contação de história "Desvendério", com Morgana
Horário: 15 horas
Local: Museu Histórico de Londrina

Bate-papo "A Carne do Corpo, a Carne da Palavra: Literatura e Erotismo", com Reinaldo Moraes e Felipe Pauluk
Horário: 20 horas
Local: Museu Histórico de Londrina

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