Reinado das colagens
Nelson Sato
De Londrina
Beck sempre apronta uma. É um dos artistas pop mais inventivos surgidos ao longo desta década. Desta vez, no novo disco Midnite Vultures (Universal), ele tira uma onda em cima do funk e do soul dos anos 70.
A travessura já rendeu um hit nas paradas americanas: Sexx Laws, a faixa de abertura. A música é arrebatadora. Foi escolhida para virar clipe e single promocional. Contém groove suficiente para rivalizar com Loser, o grande sucesso de 94 e principal responsável por içar o artista do anonimato.
Sexx Laws revisita o funk, recheando o arranjo com vocais que remetem à fase black de Marc Bolan & T. Rex. A surpresa vem no final, com inesperados acordes de banjo. Uma versão da música saiu em vinil numa tiragem limitada de mil cópias sendo vendida apenas pela Internet através do site oficial do rapaz (http://beck.com).
É o grande destaque do disco ao lado de Beautiful Away, a mais melodiosa e que traz participação da cantora inglesa Beth Orton nos vocais. Beck se esmerou nos detalhes de produção. Demorou 1 ano e dois meses para gravar todo o material em seu estúdio, em Los Angeles. Muitas composições ficaram de fora e deverão entrar em seu próximo trabalho.
Além de Beth Orton, o álbum traz participação do guitarrista Johnny Marr, ex-Smiths, na faixa Milk & Honey. Revisitando os seventies, o cantor incluiu uma peculiar programação robótica em Get Real Paid, bem ao estilo da banda alemã Kraftwerk. Embora soe retrô, Beck dissolve os cacoetes de época com uma abordagem futurista explorando a tecnologia em sucessivas colagens sonoras.
Algumas faixas parecem meras colisões de fragmentos, descambando às vezes numa zoeira chata e sem direção. Em outros momentos, ele afeta tanto a voz que fica parecendo um clone de Lenny Kravitz. Mas, no conjunto, o disco bate dezenas de concorrentes nesta inflação de lançamentos de final de ano. Merece, com folga até, um lugar na lista de compras natalinas.





