São Paulo, 04 (AE) - Acendam os incensos: vem aí o rei da new age, o japonês Kitaro. Ele toca na quinta (08) e sexta-feira (09) no Via Funchal, em São Paulo. Kitaro é a versão musical de Paulo Coelho. Nascido em Toyohashi, no Japão, em 1953
o músico conquistou o mundo dos sons cabeça com uma espantosa habilidade em fundir filosofia popular com uma música de abstrações fáceis.
Kitaro tornou-se então um guru. Muita gente do rock voltou-se para ele como os muçulmanos se voltam para Meca - um exemplo é o vocalista do Yes, Jon Anderson.
Há alguns anos, Kitaro mudou-se para um casarão nas montanhas do Colorado e escreve também livros e poemas. Sintomaticamente, a turnê dele chama-se Novo Milênio (End of the Millenium), com a qual ele tem corrido o mundo e que leva, depois do Brasil, para a Europa, Sudeste da ásia e China.
"A turnê trata da minha esperança, da minha preparação para o próximo milênio", disse Kitaro, em entrevista por telefone de Los Angeles, na sexta-feira (02) à tarde. É um homem simpático, de poucas palavras, todas elas muito bem medidas.
"Estou apenas aprendendo", ele diz. "Estudar é mais importante do que falar." A influência de gente como Kitaro e o grego Vangelis na música new age se estendeu como um lençol pelos anos 70, 80 e agora 90, com a nova safra do gênero (a francesa Emma Shaplin é uma das novas seguidoras). Ele esteve no Rio e em São Paulo em 1994, encontrou Naná Vasconcelos e diz que lhe agrada bastante a música brasileira.
Kitaro vem com uma comitiva de seis músicos (todos japoneses), 16 pessoas e oito toneladas de equipamento, segundo a Assessoria de Imprensa dele. Deverá tocar músicas como Silk Road e Dance of Saravasti, além das do CD mais recente, Gaia. O show terá duas partes, com 20 minutos de intervalo. Antes do músico japonês, haverá uma apresentação da dupla Francisco Magaldi e José Lourenço, que também faz new age.
"Nós usamos um pouco de tecnologia, não muita", diz Kitaro. Ele deixa claro que não lhe agrada tecnologia "demais"
mas diz que a música é uma forma de expressão, portanto, tudo é válido. "Eu penso que muita tecnologia faz a individualidade desaparecer e eu acredito em falar cara a cara, não gosto de mal-entendidos", avisa.
A mística de Kitaro começou a se disseminar mais forte nos anos 80. É uma grife esotérica. Em 1980, tocou para mais de 40 milhões de pessoas num concerto ao vivo, transmitido pela televisão japonesa. Depois, participou de filmes, como "Entre o Céu e a Terra", de Oliver Stone.
Para filmar "Entre o Céu e a Terra", ele ficou com Stone durante três semanas no Vietnã. Estudou os instrumentos típicos daquele país, sampleou sons e fez a trilha. Contesta a crítica de que a arte dele não passa de "música de elevador" e diz que trabalha com emoções. Um dos sucessos mais conhecidos dele, Silk Road, tem uma versão gravada com a Sinfônica de Londres, regida por Paul Buckmaster.
No Colorado, vive uma espécie de retiro espiritual com a mulher, Keiko, que é bailarina. Ali, a 3 mil metros de altitude, estuda os sons que usa nos discos, como Mandala, título da turnê que apresentou no Brasil em 1994.
Além de tocar sintetizadores e samplers (o sintetizador ele começou a usar após um encontro com Klaus Schulze, do Tangerine Dream, nos anos 70), Kitaro é um multiinstrumentista: toca cítara, oboé, guitarra, instrumentos de percussão e até uma flauta peruana, que estudou quando esteve naquele país.
Budista, mantém uma rotina inflexível na vida. Conta-se que, todo ano, toca wadiako (tambor ritual budista) durante um dia inteiro, no sopé do Monte Fuji, no Japão, onde vive com o filho Keiko.
Na lenda pessoal, há também a história de que, quando jovem, era um exímio tenista. Também tocou blues com amigos de escola, ainda adolescente, no Japão. O apelido Kitaro veio em referência a um desenho animado japonês.
Ele é músico autodidata, filho de camponeses budistas do Japão central. Só descobriu a música no colégio e o primeiro instrumento dele foi uma guitarra elétrica. Depois que abandonou o rock, pensou que estava indo contra a corrente forte da música ocidental com os sons etéreos. Nada pode ser mais Ocidental que Kitaro.

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