François Ozon, 40 anos, é um dos cineastas com trajetória mais sólida no cinema europeu. Mais conhecidos no Brasil, são dele, entre outros, ''A Piscina'' e ''8 Mulheres''. Há quase uma década realiza um filme por ano, nos quais demonstra não apenas paixão cinéfila mas particular dedicação ao intimismo quase sempre espinhoso das relações afetivas.
''O Amor em Cinco Tempos'', em lançamento hoje na cidade (confira a programação de cinema na página 2) é uma dessas incursões, arquitetada de forma particular. A narrativa caminha na contramão dos fatos, isto é, o filme abre com o divórcio e segue à procura dos primeiros tempos do casal - nesta trajetória inversa, este esquema de relacionamento universal é dissecado em busca não de julgamentos, mas de compreensão. E paradoxalmente o espectador tem assegurado o final feliz.
Pessimista ou simplesmente lúcido, o filme de Ozon se limita a constatar uma realidade bastante generalizada: a imensa dificuldade entre amor e convivência.
Trata-se da crônica estrita de um casal através de cinco movimentos. Ou momentos tópicos e significativos na relação entre Marion (Valeria Bruni-Tedeschi, uma atriz deslumbrante) e Gilles (Stéphane Freiss). ''O Amor em Cinco Tempos'' abre com o episódio mais grave (e melhor resolvido) e fecha com a imagem mais luminosa, a do primeiro encontro amoroso - o que sugere uma descrente ironia nesses dias que correm e ao mesmo tempo suscita no ânimo do espectador o enganoso bem-estar do happy end, com sua implícita promessa de felicidade eterna.
A narrativa ''ao contrário'' é articulada por Ozon com menos rigor, por exemplo, do que em dois filmes deste inicio de século,''Memento'' e ''Irreversível''. Mas ele demonstra aqui suficiente destreza para espalhar, neste mapeamento retrospectivo, sinais abundantes - ora significativos, ora próximos ao clichê - que indicam a semente do fracasso conjugal. De qualquer modo, à exceção do quinto inicial do relato, com a surda violência sob a gélida formalidade da separação legal, sempre há nos quatro blocos a seguir um sinal de efêmera felicidade. Esta felicidade aparece apesar dos fatos, condutas ou gestos que sugerem o lento desencanto de um com o outro, e a consequente e gradual deterioração do vínculo.
A análise que Ozon oferece sobre a vida a dois resulta provocativa, áspera e algo desalentadora, do ponto de vista de autor ''cabeça''. Mas na medida do possível, o diretor parece querer também seduzir a platéia, e tempera todo este quadro com emoção legítima (a trilha sonora ''passadista'' é uma evidência).
Com equilíbrio - e por que não, com sabedoria -, o que Ozon está dizendo, afinal, é que as relações não se rompem por motivos concretos, mas por acúmulo de circunstâncias: um olhar, uma pequena decepção, uma tentação isolada, uma impaciência. Podem não ser constatações com respostas fáceis, mas estão postas para discussão neste filme austero e conciso. (C.E.L.J.)

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