'REGRAS DO JOGO' ABORDA AS IDEOLOGIAS
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quinta-feira, 07 de setembro de 2000
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Depois do Oscar de direção, que recebeu por Operação França, William Friedkin só conheceu o gosto do sucesso com O Exorcista, o primeiro da série. O filme podia não ser bom, mas foi fundamental na escalada do gore que terminou levando ao terror de Jason, Freddy Krueger e Michael Myers. Depois, Friedkin não conseguiu acertar uma. Os filmes ruins foram sucedendo-se monotonamente. Nem o thriller erótico Jade, nas águas de Instinto Selvagem, conseguiu surpreender. Friedkin, que parecia liquidado, ainda tem bala para disparar.
Regras do Jogo estreou ontem nos cinemas brasileiros (veja programação na página 5 ). Pode e deve ser discutido pela dimensão política e ideológica que assume, mas como espetáculo de cinema está um degrau acima de tudo o que o diretor tem feito nos últimos 20 anos. Beneficia-se da presença de atores sólidos - Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson, não podendo deixar de ser citado também o australiano Guy Pearce (de Los Angeles, Cidade Proibida).
É um drama de julgamento, situado na vertente do filme de guerra - um filme de corte marcial. Jackson é o militar acusado de promover um grave incidente internacional. Oficial considerado exemplar, é designado para uma missão de resgate no Oriente Médio. Deve retirar o embaixador e sua família da embaixada americana situada por manifestantes hostis - e árabes, claro. Jackson dispara as armas do grupo sob seu comando e o resultado é um banho de sangue que revolta o mundo. Ele é levado à corte marcial. Chama, para defendê-lo, o militar a quem salvou a vida no Vietnã (Tommy Lee Jones).
O julgamento é uma farsa. Jackson já foi condenado pelo alto comando e o secretário da Defesa fez desaparecer as provas que poderiam absolvê-lo - as imagens, gravadas pelas câmeras da embaixada, mostrando que os habitantes não eram pacíficos e portavam armas. Acusação e defesa digladiam-se no palco do tribunal. Jackson incrimina-se, Jones e ele brigam a socos - como em qualquer filme americano de ação em que os machos precisam exercitar os músculos para selar a camaradagem.
No fim, um letreiro diz que a história é real e informa o que ocorreu com cada um dos envolvidos. Se é mesmo real, a trama verdadeira foi romanceada e virou ficção, pois é assim que age Hollywood. Não uma ficção inócua, mas mais um filme que se nutre da paranóia americana, no caso, o ódio que os EUA votam ao Grande Satã representado pelo povo árabe. Ideologicamente, Friedkin é ambíguo, quando não tendencioso. É pena, porque há uma discussão sobre honra e disciplina militares, sobre os bastidores da política invadindo a caserna que seria interessante se o inimigo fosse, por exemplo, o nazismo. Mas não é, e isso faz toda a diferença.
Só para constar - embora Friedkin deva sua glória à eletrizante corrida de carros de Operação França, o policial com Gene Hackman, disponível em vídeo, não é seu melhor filme. Esse título ainda pertence a Quando o Strip-Tease Começou, uma comédia burlesca com o espírito irreverente (e contracultural) de 1969. Mas há informações de que aquele filme foi salvo na sala de montagem, a despeito de Friedkin. Ainda não foi desta vez que ele teve sua nova chance.


