Regras de etiqueta do passageiro elegante
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Mônica Nóbrega<br> Agência Estado 
São Paulo - Esperar ser chamado ao guichê do check-in para só então revirar a bolsa atrás do passaporte é uma grande falta de educação. Já se esparramar para um cochilo (discretamente, se isso for possível) nas cadeiras da sala de embarque em caso de vôo atrasado ou demora na conexão pode ser pura questão de necessidade, sem configurar exatamente uma deselegância. É simpático apresentar-se brevemente ao companheiro de poltrona e desejar boa viagem; no entanto, mesmo que ele pareça boa gente, se você passar longas horas com a tela do laptop acesa sobre a pequena mesa de refeições, será considerado um chato de carteirinha.
Viajar de avião é uma situação bastante delicada. Aeroportos e vôos lotados, aperto e longa imobilidade tornam a situação um verdadeiro barril de pólvora. ''O ser humano estressado perde a educação emocional'', diz o consultor de etiqueta e comportamento Fábio Arruda.
E se, no dia-a-dia, as regras de etiqueta, longe de frescura, são um conjunto de códigos de comportamento que facilitam a convivência em grupo, na viagem aérea elas se tornam vitais para que os passageiros - e a tripulação - não cheguem ao destino engalfinhados. Antes, durante e depois do vôo, pequenas e grandes atitudes ajudam a evitar a explosão do barril.
Antes
Não há grosseria maior do que o atraso. Quem está em cima da hora corre pelos corredores, empurra e dá mochiladas nos outros e ainda pode protagonizar a cena constrangedora de implorar para embarcar quando o check-in já foi encerrado.
Aliás, tenha em mente: espernear, insultar a mãe do atendente ou chorar sua tragédia pessoal por causa do congestionamento até o aeroporto não vai mudar as regras. Programe-se para chegar cedo. Se o vôo estiver atrasado ou for cancelado, segure a onda. ''Xingar é inadmissível. É fácil ser elegante quando tudo corre às mil maravilhas. Mas nas piores horas, mostramos quem somos'', diz a consultora de etiqueta e marketing pessoal Ligia Marques.
Esquecer da vida nas comprinhas e demorar para entrar na sala de embarque é demonstração de falta de respeito. ''Ser chamado pelos alto-falantes é um mico'', diz Arruda.
Antes de chegar ao avião, o passageiro ainda pode pecar contra a elegância nas filas. Dicas: nem pense em furá-las - a menos que o funcionário da companhia aérea anuncie prioridade para o seu vôo -, evite comer e, principalmente, falar ao celular.
Por falar no celular, é quase impossível manter a classe com o aparelho ligado, dizem os consultores de etiqueta. Além de obrigar outros viajantes a ouvir uma conversa para eles completamente desinteressante, quem fica todo o tempo pendurado no aparelho enquanto a aeronave não decola piora o desconforto de quem tem medo de voar, acentuando a sensação de insegurança.
Durante
Na cabine do avião, é indispensável exercitar a paciência, a tolerância e o respeito com o próximo. Ao entrar, nada de dar uma de esperto e sentar ao lado da mãe ou do namorado se esse não é o lugar marcado no seu cartão de embarque. Prefere a janelinha? Faça o check-in mais cedo na próxima vez. Sente muita vontade de ir ao banheiro? Escolha uma poltrona no corredor. Não que seja uma gafe pedir licença para se levantar quando necessário. Só não dá para fazer isso a cada meia hora.
Durante o vôo, busque o diálogo para resolver problemas, antes que a situação fique insustentável. Com educação, você pode pedir que aquele chato pare de cortar caminho pelo vão entre a sua poltrona e a da frente. Também pode solicitar mais cuidado ao passageiro sentado na poltrona atrás da sua, que usa o seu encosto como apoio a cada vez que se levanta.
Seu ombro não é travesseiro, mas mantenha a delicadeza e o bom humor ao acordar o vizinho cujo corpo tombou em cima de você. Se ele ronca, que tal pedir licença para ir ao banheiro como estratégia para fazê-lo mudar de posição? Se não houver outro jeito, ouça música.
Há uma criança que chora sem parar? Simplesmente tolere. Deixe em casa os olhares de reprovação e nem pense em reclamar - seja com os pais ou com os comissários. ''Os pais já estão suficientemente constrangidos com a situação. O mínimo que alguém de bom senso pode fazer é ser solidário'', diz Arruda. Para a consultora Ligia Marques, é válido até oferecer algum objeto que possa distrair a criança, como um lápis e um caderninho que estão perdidos em sua bolsa.
O comissário pode ser chamado caso você não consiga resolver um problema sozinho. Exemplo recorrente é o bêbado, personagem constante em vôos. Se perceber o estado dele antes da decolagem, avise à tripulação. Ainda há tempo de tirar o inconveniente do avião, para o bem de todos. E tome cuidado para não seguir o exemplo. Controle as taças de vinho e as doses de uísque a bordo.
As regras para se alimentar com classe são as mesmas de qualquer outro ambiente. O cuidado deve ser redobrado para não derrubar comida nos outros. Mantenha os cotovelos junto ao corpo. E pode, sim, pedir mais. Só não vale mostrar indignação caso o comissário diga que não tem.
O espaço exíguo da classe econômica potencializa os conflitos, mas está enganado quem acha que a executiva e a primeira classe são sempre exemplos de boa educação. ''É só reparar no fim da viagem. A executiva e a primeira classe costumam estar caóticas, com cobertas, meias e revistas pelo chão. Manter o mínimo de ordem é indispensável'', diz Fabrizio Rollo, editor de Estilo da revista ''Vogue''. A recomendação vale também para o banheiro. ''Não deixe vestígios'', diz.
Tirar os sapatos é perfeitamente aceitável em vôos longos. O problema é que, por incrível que pareça, há quem não tenha a mínima vergonha (ou noção) do próprio chulé. Sapatos limpos e meias novas são uma questão de educação. Se desconfiar que pode existir algum mau cheiro, aguente firme e mantenha-se calçado.
Rollo dá ainda uma dica de estilo: homens, nem pensem em tirar as meias. ''Os pés masculinos costumam ser malcuidados. É uma visão que ninguém merece.'' Mulheres podem exibir unhas feitas e pés bem hidratados à vontade.
Conversas em voz baixa são permitidas. Outra coisa que pode incomodar mas não admite reclamação é a luz individual. Sim, você tem o direito de dormir. E o seu vizinho insone tem o direito de ler. Por falar em direitos, uma regrinha básica: morda a língua antes de bradar ''eu paguei!'' aos quatro cantos da aeronave. Você e todo o mundo ali dentro.
Depois
Se você se manteve um gentleman ou uma lady até agora, fique firme para não pôr sua imagem de elegância a perder nos minutos finais. Não use sua bagagem de mão como arma para abrir caminho no desembarque.
Sua mala é gigante? Espere pacientemente até o tumulto em torno da esteira diminuir para pegá-la sem machucar ninguém. Ao sair, afaste-se do portão de desembarque antes de cair nos braços dos amigos ou familiares que o aguardam - afinal, quem vem atrás não é obrigado a esperar o fim da sessão de abraços emocionados antes de seguir caminho.


