Regras complicadas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de julho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Sabe-se que setores conservadores de Hollywood sempre alimentaram - ultimamente com bem menos sucesso, já que os sobreviventes no setor são poucos e bem menos influentes - a idéia de cultivar certas propostas românticas como forma de perpetuar uma aura de mitologia que o tempo insiste em sepultar cada vez mais fundo. Como, por exemplo, reciclar o ''star system'', atribuindo a determinados novos atores fisicamente parecidos com determinados velhos atores um conjunto de características de tipos de sucesso vividos na tela. Já se falou que Kevin Costner seria o Gary Cooper dos anos 90 e Brad Pitt o Robert Redford desta geração. Os dois últimos estão juntos agora na frente das telas (''Nada é Para Sempre'', de 1992, teve direção de Redford com Pitt no elenco) em ''Jogo de Espiões'', que está em cartaz (veja a programação de cinema nesta página).
Nem tente resumir para quem quer seja tudo o que ocorre em ''Spy Game''. E não apenas a tarefa é complicada porque a história percorre caminhos espinhosos, mas há ainda elementos intrincados que obrigam o espectador a trabalhar com a melhor memória temperada pela mais hábil sutileza. Isto até quase o final, quando temos uma lição de moral nada edificante. Mas, de qualquer maneira, o resumo. O protagonista principal é Nathan Muir (Redford), veterano oficial da CIA. Um dia antes de se retirar da ativa, ele fica sabendo que Tom Bishop (Pitt), jovem agente que algum dia foi seu protegido, está preso num cárcere chinês e será executado imediatamente. O ano é 1991 e a guerra fria está por muito pouco. Os chefes de Nathan propõem a ele um último serviço que poderá evitar um incidente internacional. O veterano deverá esboçar um plano para resgatar o amigo torturado e quase à morte.
Deste ponto ao fim, a espiral é cada vez mais complexa. Nathan se lembra de todas as ações secretas que compartilhou com Tom, suspeita que seus chefes estão armando alguma e emprega toda sua sagacidade para salvar o rapaz que cumpriu sua missão de espionagem com lealdade e honra. Entre o passado e o presente - os flash-back interrompem permanentemente a história, e com fusos horários diferentes - o filme recupera aventuras e desventuras da dupla, e como pano de fundo pretende mapear a complexa metamorfose que sofre a CIA entre 1975 e 1991, época de profundas mudanças no tabuleiro político mundial.
O diretor Tony Scott, o irmão caçula e menos dotado de Ridley Scott, tem uma filmografia que oferece comédia, o ''thriller'' e a ação. Aqui, o diretor de ''Top Gun'' procurou injetar dose reforçada de entretenimento mas seu empenho acabou frustrado por um roteiro que tropeça em seu próprio emaranhado. A trama cobre dezessseis anos da história norte-americana contemporânea, vai a China, a Beirut e outras locações espetaculares. Tudo isso se converte num vasto quebra-cabeças que, além de manipular sem tréguas a atenção do espectador, acaba provocando um certo e natural torpor.
Sedutores cada um a seu modo, Robert Redford e Brad Pitt têm uma química curiosa, coisa assim meio de pai para filho. São bons atores - Redford como sempre é ótimo, Pitt pode chegar lá - e hábeis em arrancar suspiros de platéias habitadas por espectadoras sempre em busca desses melancólicos olhos azuis perdidos e em busca de porto seguro.


