Quando a filha pré-adolescente Benedita estava para fazer 4 anos, Regina Casé teve a idéia de comemorar no Jardim Botânico. Moradora do bairro e frequentadora do parque, ela achou que não haveria melhor lugar para reunir os amiguinhos de escola da menina e foi pedir autorização ao então presidente da Fundação, Wanderbilt Duarte de Barros. ‘‘Entrei no gabinete dele morrendo de vergonha e, antes que eu pudesse falar, a Benedita apontou para a mesa e falou: ‘Olha, um pedaço de munguba!’’
Se o leitor não faz a menor idéia do que Benedita estava falando, pode imaginar como o velho botânico ficou impressionado. A festa, totalmente anticonvencional, teve pelada com abricó de macaco, reconhecimento de folhas de formas e cores diferentes e, durante muito tempo, manteve as plantas entre os assuntos preferidos da garotada. ‘‘Aquilo foi o embrião do ‘Um Pé de Quê?’’, diz a atriz, empolgada com o programa que estréia no dia 24 de abril no canal Futura.
Em 18 episódios de 15 a 20 minutos, a série vai tratar do mesmo número de espécies de árvores brasileiras, mostrando suas características com o jeito descontraído de Regina, sempre agregando informações históricas e culturais. ‘‘O programa não fala de uma coisa só, é transversal, situando essas árvores na vida das pessoas, e isso é o que há de mais moderno em educação hoje’’, elogia a gerente geral do Futura, Lúcia Araújo.
Lúcia lembra que antes mesmo de o canal entrar no ar foi feita uma pesquisa para levantar os programas que os brasileiros consideravam mais educativos. Deu Globo Repórter e Brasil Legal - este último produzido e apresentado por Regina na Globo e reprisado, em versões reeditadas, mais robustas, no próprio Futura.
É, mesmo não sabendo o que é munguba, não erra quem apostar que ‘‘Um Pé de Quê?’’ tem tudo a ver com seu antecessor. O primeiro programa é sobre a sapucaia, árvore escolhida pelo então imperador Dom Pedro II e pelo paisagista Auguste François Glaziou para ladear o eixo monumental do Palácio Imperial, hoje, Museu Imperial, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. As folhas cor de rosa da árvore se estendem ao figurino de Regina, que, mesmo básico, vem assinado pelo seu inseparável Felipe Veloso.
Indispensável mesmo vem sendo a assessoria do autor do guia ‘‘Árvores do Brasil’’, Harri Lorenzi, e de toda a sua equipe na Fundação Plantarum. Um charme especial vem do design gráfico de Barrão e Fernanda Villa-Lobos e da música-tema composta especialmente por Arnaldo Antunes.
Cercada de talentos, entre eles o marido, Estevão Ciavatta, que assina a direção, Regina conseguiu produzir um programa educativo e legal, agradável para jovens e adultos, acessível para crianças, sem despender de muitos recursos.
Cada programa custa em torno de R$ 20 mil. Isso exige adaptações: ‘‘Quando vocês vêem aquelas cenas do alto, parecendo que foram feitas de uma grua, estamos em cima de um carro de consertos da Light ou numa caçamba daquelas de podar as árvores, da Fundação Parques e Jardins’’, diverte-se a atriz.
As viagens, que sempre fizeram sua cabeça, também foram reduzidas. ‘‘Vamos a São Paulo, Curitiba, Juazeiro, Juiz de Fora...’’, enumera Estevão. Um roteiro bem urbano, mas é isso mesmo. ‘‘Lamentamos ficar devendo as árvores amazônicas, mas achamos que seria legal mostrar as que estão mais perto da maioria das pessoas.’’
É assim que, no segundo programa, Regina vai conversar com a moradora de uma rua de Ipanema, bairro da zona sul do Rio, que conviveu cinco anos com uma embaúba crente de que era um mamoeiro. Na sequência, o programa sobre o buriti segue o roteiro mineiro de Guimarães Rosa para chegar aos eucaliptos que ameaçam a sobrevivência das veredas.
O episódio sobre coqueiros mistura culinária e MPB. E, ao falar sobre palmeiras, a equipe vai a Angra dos Reis e Parati mostrar como a espécie pupunha, plantada para extração legal, está ajudando a recuperar a jussara, praticamente extinta pelos palmiteiros ilegais. Depois, tem jequitibá, araucária, cajueiro, abricó de macaco, favela, piaçava, jatobá...
Obs: Munguba, ou mungubarana, é uma árvore que pode atingir oito metros de altura e seis de largura na copa. Dá belas flores brancas, púrpura e cor de rosa e, como também é resistente, é muito utilizada em projetos de paisagismo urbano. O que Benedita viu na mesa de Wanderbilt foi metade de um fruto, em forma de cápsula. A casca fibrosa da árvore é usada para fabricar cordas.

mockup