Regina Casé comete deslize preconceituoso em seu "Muvuca"
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sexta-feira, 29 de janeiro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 29 (AE) - Os futebolistas Júnior Baiano e Fernando Baiano escolheram o baiano no sobrenome para afirmar uma referência geográfica. Canhoto da Paraíba, instrumentista que toca com o violão invertido, nasceu em Princesa Isabel, no interior da Paraíba - para ele, trata-se de orgulho pessoal envergar o nome do Estado natal logo após o de sua peculiaridade artística.
Mas para Regina Casé, a voraz apresentadora de Muvuca, "paraíba" parece ser todo aquele sujeito que, pobre e nordestino, por alguma espécie de sinistra vocação, se diverte fazendo programas de índio em lugares e horários improváveis (como os campos de futebol de areia desglamurizados de Botafogo, na madrugada no Rio de Janeiro).
Pelo menos foi o que ela demonstrou no programa de sábado passado. "Agora, quando eu passar pela praia e vir aquele monte de paraíba jogando bola, vou saber o nome de cada um deles", disse a atriz-apresentadora-animadora-amiga de todo mundo da Rede Globo. Ela tinha acabado de levar um time inteiro de "expatriados" cearenses e pernambucanos e até paraibanos que colhera na madrugada para tomar café na sua maison de campanha - a tal Muvuca.
O jogador de futebol Edmundo, no dia 20 de agosto de 1997, já se envolvera em um caso semelhante. Ele ofendeu o árbitro cearense Francisco Dacildo Mourão Albuquerque de "paraíba" após sua expulsão no jogo Vasco e América de Natal. Foi processado por isso.
A diretora do Centro de Tradiçäes Nordestinas de São Paulo, Cristina Abreu, lembra que essa atitude é discriminativa, e fere o capítulo 1, artigo 5.º, inciso 42 da Constituição Federal, que trata dos atos de racismo no País. Por causa de um raciocínio dessa natureza, grupos neonazistas picharam a sede da Rádio Atual, na Rua Jacofer, pregando contra a migração nordestina.
Para boa parte dos cariocas, chamar nordestino de "paraíba" tornou-se uma regra inexorável, assim como os paulistanos costumam chamar de "baiano" não só o nordestino, mas o sujeito pobre, não raro mal-vestido (há momentos em que "baiano" torna-se sinônimo de brega, nessa lógica), o "cabeça-chata", o pária que carrega a cidade nas costas.
O caso "paraíba" de Muvuca traz à tona mais um lance desastrado de desbandeiramento do preconceito. Muvuca tem audiência de milhäes e Regina Casé tem a pretensão de representar uma espécie de trégua sócio-cultural da televisão - fala com pintores de parede, com emergentes e com poderosos apresentadores de telejornais noturnos; dirige-se tanto ao intelectual quanto ao casal de atores apolíneos tolos e enciumados. Mas é um programa gravado, seu naturalismo fake não pressupäe tamanha falta de sensibilidade.
O campeonato de futebol de areia travado entre equipes de garçons e copeiros de restaurantes do Rio de Janeiro transcorria como uma odisséia particular, até Regina Casé entrar nele. A descoberta da atriz-apresentadora foi jornalística, porque ela desvendou um universo até então secreto da madrugada carioca - apesar de tão óbvio.
Os atletas diletantes, gladiadores noturnos de copa e cozinha, foram realmente seduzidos pelo glamour da iluminação e das câmeras de TV, que parecia reconhecer sua batalha notívaga. Mas Regina mostrou que não foi tomada pela saga dos jogadores, valendo- se deles apenas como mais um recurso do tom ocasional do seu programa.
Ao chamar todos de "um monte de paraíba", ela demonstra que um "paraíba" só se torna menos "paraíba" se ele puder prestar algum tipo de serviço. No anonimato, um "paraíba" é apenas mais um "paraíba".
Não se trata de moralismo. Trata-se apenas de cuidar para que a piada não se torne regra e que a regra não se torne piada. Ademais, não somos um "monte de paraíba": somos paraibanos.


