REGIÃO FOI
MOLDADA
PELO GELO
Patagônia chilena começa a meia hora de vôo abaixo da cidade de Puerto Montt
Zilma Santos
DivulgaçãoGelo azulIcebergs no Lago Grey: blocos de gelo que se desprendem do glaciarNo princípio, era o gelo... É essa a versão da ciência para o Gênesis na região. E foi o gelo o seu maior arquiteto. Segundo os cientistas, há 1 milhão de anos ocorreu a maior glaciação patagônica (ação exercida na superfície da terra pelas geleiras). A vida só começou a ocupar os espaços quando o gelo se desfez. Mas ainda hoje, o rigor do clima é um limite. Na Patagônia, por exemplo, não há serpentes nem formigas; alguns lagos não têm nada além da água cristalina; e em alguns rios, só é possível pescar porque a truta foi introduzida.
A cidade de Punta Arenas (400 km do Parque Nacional Torres del Paine), capital da província de Magallanes, é o ponto de chegada - ou partida - para uma ecoaventura inesquecível. Puerto Natales, 250 km adiante, capital da província de Última Esperança é a última parada antes que o viajante se embrenhe no reino da solidão. Nesses confins, cruzar com gente pelo caminho é algo raro. Mesmo sendo ‘‘gauchos’’ - como são chamados os peões das muitas estâncias da região. Fora eles, só máquinas e operários trabalhando na estrada; e as paradas de controle dos carabineiros.
O navegador Fernão de Magalhães explorou a região em 1520, quando encontrou o estreito ligando o Pacífico e o Atlântico; mas só três séculos depois, em 1879, é que o lugar começou a ser divulgado na Europa como Eldorado exótico para atrair colonizadores e desafio a ser vencido pelos aventureiros. Existem histórias engraçadas como a do europeu que se autoproclamou rei da Patagônia, promovendo banquetes com pratos típicos da região para atrair investidores. Tudo falso, naturalmente. Contam que a carne do animal exótico patagônico não passava de um bem apimentado pernil de porco.
Imensa e desabitada, a Patagônia só começou a ser povoada em 1843 com a construção do Forte Burnes, no lugar que mais tarde se chamaria Punta Arenas. Os primeiros imigrantes europeus - ingleses, alemães, franceses, suíços e iugoslavos - chegaram 35 anos mais tarde, junto com os primeiros ‘‘turistas’’, um grupo de nobres estrangeiros, liderado por Lady Florence Dixie e seu marido Alexander Dixie. O relato da viagem - muito engraçado por sinal - resultou no livro ‘‘Across Patagônia’’, que ganhou uma versão em espanhol da Universidad de Magallanes.
Lady Florence promoveu junto com outros lordes ingleses várias expedições para o região. Segundo relato de seu livro, a Patagônia era um lugar que valia a pena conhecer principalmente porque permitia cavalgar com ampla liberdade por enormes descampados. Mas não é só isso. A Patagônia é um daqueles lugares mágicos capazes de invocar sonhos agradáveis durante toda a vida.

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