Região atrai 'bird watchers' estrangeiros
Ele começou como motorista na antiga Fazenda Caiman, onde nasceu, camuflado na rotina de peões e cabeças de gado. O tempo passou e, hoje, o guia de campo Vitor do Nascimento, 33 anos, o ''Vitinho'', é considerado um dos maiores conhecedores de aves nativas de todo o Pantanal.
Ao invés do trato direto com as tropas, agora seu maior trabalho é gravar em um sofisticado aparelho de MD os sons das aves que, em época de seca ou de cheia, cruzam os ares do agora Refúgio Ecológico Caiman. Nada de hobby: a atividade garante o material utilizado com os ''bird watchers'' (do inglês, observadores de pássaros), turistas especializados, de classe média alta e, quase que na totalidade dos casos, de origem norte-americana ou inglesa, que escolhem o Pantanal como destino final para a contemplação das espécies.
Hoje também um bird watcher com mais de 200 sons gravados, Vitinho diz que boa parte dos gringos também aporta nos parques Iguaçu, no Paraná, e Itatiaia, no Rio de Janeiro, com passagens antes por outros países de fauna e flora diversas, especialmente no continente africano. De acordo com o pantaneiro, mais que contemplação, a atividade desses especialistas que agem em bando e em um silêncio quase absoluto, uma vez na lida é uma verdadeira aplicação de recursos tecnológicos. Do binóculo diferenciado de US$ 1,4 mil ao microfone superpotente, todo detalhe é importante na hora de listar espécies, gravar seus sons e atraí-las para o flash da máquina fotográfica.
''O som gravado é repetido para atrair a ave: ela ouve e sai para defender o território. Aí eles coletam toda a informação que precisam'', conta. Vitinho diz ter aprendido muito do que sabe hoje acompanhando esses grupos. ''Os bird watchers trazem as listas das espécies de que eles coletam o som, aí a gente vai trocando idéia, fazendo intercâmbio de conhecimento. Além do mais, estão muito mais atualizados e bem equipados que nós.'' E o idioma não dificulta? ''Não, porque chego em casa e repito três, quatro vezes as espécies em inglês. É a minha forma de praticar.''
Se a classe social e o perfil de cada visitante a maioria, aposentados se assemelham bastante, o bird watcher brasileiro destaca uma diferença entre ingleses e norte-americanos que, de certa forma, não deixa de ser curiosa. ''São muito competitivos, a ponto de, às vezes, até inventarem ter visto alguma espécie quando o concorrente deu bobeira e não acompanhou uma parte da observação para ficar na piscina, por exemplo.'' Adversários ou não, outro ponto em comum entre eles é na preferência pela ave: de longe, segundo Vitinho, a monogâmica arara-azul, um dos símbolos da região. (J.G.)





