REGGAE À FLOR DA PELE
Antônio Mariano Júnior
De Salvador
Coisas de celebridade. Assim sendo, a principal atração internacional do 7º Panorama Percussivo Mundial, obviamente, se atrasou para a entrevista coletiva à imprensa. O motivo? Ora, Rita Marley, que se apresenta hoje no Teatro Castro Alves, em Salvador, se demorou um pouco porque havia ido a um shopping center (sofisticado pelo jeito) comprar um típico vestido de baiana com direito a babado e tudo o mais. E foi com o traje adquirido há pouco de fato muito bonito que ela se sentiu pronta a responder às perguntas dos jornalistas. Única exigência, quem ninguém fumasse em sua presença.
Deu para ver que Rita Marley é vaidosa. Porém, a sinceridade foi a virtude mais notada. Meu empresário disse que seria muito bom eu vir ao Brasil. Ele me disse também: vá e dê bastante entrevistas, informou. Trocando em miúdos, que ela deixasse uma boa impressão em sua primeira visita ao País e, de quebra, promovesse antecipadamente o lançamento de seu quarto disco-solo, ainda sem data definida para sair.
Acontece que Rita veio descobrir terras brasileiras não para cantar necessariamente o gênero que a projetou e ainda a projeta mundo afora. É que Gilberto Gil, um dos diretores do Percpan, pediu-lhe uma apresentação mais voltada ao resgate de gêneros musicais que antecederam ao reggae. Como o Mento e canções do ritual Kumina. Fiquei entusiasmada com o convite mas admito que estou um pouco decepcionada porque não vou cantar só reggae, confessou.
Tem fundamento sua lástima. Afinal, desde que se entende por artista, Rita sempre teve o reggae como referência. Sua história pessoal se mistura com a própria mitologia criada em torno de Bob Reggae Marley, com que foi casada durante 15 anos. Juntos, batalharam para que o gênero se popularizasse em todo o mundo, fosse através de grupos dos quais fez parte (como The Soulettes e I-Three) ou como backing vocal do mítico Bob Marley & the Wailers.
Rita é um ícone jamaicano, mesmo sendo Cuba seu país de nascença só de nascença pois desde menina foi criada no gueto de Trench Town, em Kingston. Tanto que o governo daquele país Jamaica a condecorou, em 96, com a Ordem da Distinção pelos relevantes servicos prestados àquela nação.
Porém a honraria que mais gosta de ostentar é a de Rainha do Reggae. É assim que me chamam, o que vou fazer?, diz com indisfarçável orgulho. O título, como faz questão de deixar bem claro, lhe cabe mais por direitos profissionais que simplesmente por ser a esposa do rei do reggae uns e outros ainda preferem vê-la na segunda opção. Tenho um trabalho próprio mas sei que é difícil para as pessoas separarem as coisas. Aceito do mesmo jeito porque somos o que somos, não dá para negar, afirma.
Hoje o mundo associa musicalmente a Jamaica ao reggae, assim como o Brasil ao samba. Os anos de labuta pela aceitação do gênero foram válidos, mas Rita admite que a associação total aconteceu depois morte de Bob Marley, em 81. Houve uma curiosidade nas pessoas em descobrir quem realmente era esse homem revolucionário, diz.
A morte de Marley trouxe a Rita outros transtornos. Precisou interromper um pouco a carreira-solo para tomar conta do espólio que ela não revela o valor disputado por muitos. Bob não deixou testamento e tivemos problemas sérios porque muitos queriam uma fatia do bolo, informa.
Assim, na lata, não são citados nomes. Porém, Rita dá a entender que alguns membros do The Wailers estariam reivindicando parte da herança deixada por Bob Marley. Por questões judiciais não posso dar nomes, mas garanto que foram pessoas de fora da família, avisa.
Por falar em família, Rita Marley tem que ter uma boa atuação para satisfazer a todos, não só na questão financeira. Só filhos são 11 (seis com Bob e outros cinco reconhecidos oficialmente pelo marido) que lhe deram 36 netos. Agora, Rita se fecha em copas quando abordada sobre sua vida particular. Tudo o que posso afirmar é que tenho um namorado que me manda flores, diz secamente. Outro assunto evitado é a situação sociopolítica da Jamaica. Minha religião e minha fé não me permitem debater esses temas, defende-se. Então tá!!
Quem quiser saber um pouco mais sobre a história dessa mulher terá que esperar a publicação de uma autobiografia que ela está escrevendo há dois anos. Resta saber se Rita Marley vai soltar o verbo ou não. Um coisa é certa: o livro, por mais que se faça contas através de datas ou acontecimentos, não informará a idade dessa senhora. Segredinhos de mulher vaidosa...
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Salvador a convite da organização do Percpan.





