São Paulo, 19 (AE) - É admirável a elegância de grande senhor da regência de Lorin Maazel, dirigindo com movimentos precisos à Toscanini, sem aquele olhar tenebroso de águia do italiano. Que, com certeza, não aprovaria alguma das marotices do americano, como reger, de tênis e abrigo, todas as sinfonias de Beethoven num único dia, com três orquestras diferentes, num evento de caridade. Mesmo na maratona, sem deixar de dar vida a cada nota. "É só que determina se se é ou não um intérprete bem-sucedido, esse nosso pequeno, porém especial, dom de, em conjunto com os músicos, tocar infinitas vezes uma obra trazendo-a de volta ao nosso tempo e possibilitando que a orquestra floresça sempre como nova", ensina.
Mas nem tudo são flores. "Os novos regentes podem até ser melhores dos que os de há 15 anos, mas quase não têm poder sobre seus músicos, o que não é saudável: se ninguém questiona, em uma avião, que o piloto tem a última palavra, por que tantos ataques ao regente?", pergunta-se. "E, o que é pior, discute-se a autoridade do maestro (um fenômeno estranho surgido após a 2ª Guerra) não por bases artísticas, mas em função de questões sociológicas ou econômicas", critica. "Em uma boa orquestra, cada música precisa se concentrar no seu trabalho individual e a função do regente é justamente reunir esses esforços num conjunto coeso que transpire leitura, interpretação", fala. "Acredito que é preciso haver comandados e líderes."
Que devem ser valorizados. "Hoje é comum criticar os salários altos de von Karajan, por exemplo, mas ninguém se irrita com os milhões pagos para um jogador chutar uma bola ou bater nela com uma raquete; ora, sem dúvida, por mais que eu ame Pelé, a contribuição à cultura universal que ele nos deu - em tempos que jogadores nem ganham tanto assim - é menor que a de Karajan", argumenta. Essa revaliação do valor da música clássica, para Maazel, também é um motivos da crise que apavora as grandes gravadoras, em busca desesperada do público perdido. "Há mesmo uma crise; afinal, quem quer comprar uma nova versão de uma sinfonia de Beethoven?"
"O mercado foi saturado aos poucos com gravações medíocres com intérpretes sem estatura regendo orquestras de sabe se lá que lugar do globo, mas vendidas por um terço do preço das boas orquestras", diz. "Fomos ultrapassados por essas gravadoras", desabafa. Ainda assim, o maestro é um otimista sobre as novas tecnologias. "Só ajudam e a nova geração técnica propiciará uma reprodução mais precisa de uma apresentação, o que é sempre benéfico", nota.
Tudo, porém, no limite da honestidade. Maazel não perdoa os colegas que criam frankensteins clássicos em estúdios, usando os melhores compassos de takes infinitos. "A gravação de um concerto deve ser exatamente isso: a gravação de um concerto; pessoalmente, gravo apenas dois takes, um que sei que vou usar e outro para pequenos acertos", conta. "Quem compra meus discos ouve 99% de uma tomada única; eu, ao ouvir outros discos, se percebo maquiagens, jogo o disco fora."
Imperativos interiores - Maazel ouve pouco o que faz. "Sou excessivamente crítico do meu trabalho, mas posso ter algumas surpresas como voltar a escutar a gravação de Don Giovanni que fiz há 20 anos para o filme de Joseph Losey", revela. "Confesso que na época tive muitas reservas; confesso, porém, que julgo agora que tomei decisões melhores do que imaginava então", conta. A mesma severidade vigora na análise de Maazel como compositor que, em 1996, teve uma peça sua executada por Rostropovich, com grande sucesso. "As duas atividades, no entanto, não se misturam, porque apesar de conhecer e amar a música de Bartók e Prokofiev não os levo como influências em minhas criações", afirma.
"Cada compositor tem imperativos interiores e precisa escrever o que compõe, independentemente de suas análises da música dos mestres; eu preciso fazer a minha música e, se ela é boa ou não, não cabe a mim dizer, apenas ouço e ponho as notas no papel", diz. "Em fevereiro, vou estrear uma nova composição que me foi encomendada pela Filarmônica de Viena", adianta. "A próxima obra? Não tenho a mínima do que vai ser", avisa.
Lorin Maazel está preocupado mesmo é com o próximo milênio. "Espero muito dessa nova era e quero dar a minha contribuição seja lá de que forma, pois creio que é nossa obrigação, como músicos, dar subsídio espiritual a tanta gente que sofre e se afasta cada vez mais das raízes humanas", promete. "A Terra é o único lugar em que há som, que precisa da atmosfera, do ar, para se movimentar e gerar a sonoridade harmoniosa da música", observa. "Em nenhum planeta que conhecemos há esse envelope de ar, embora haja luz; logo, a música é uma atividade humana por excelência e nos caracteriza"
pondera. "O som é o nosso tesouro mais precioso e precisamos tomar cuidado para que não seja abusado, desvirtuado, como ocorre atualmente", avalia. "Mas sou um otimista sobre o futuro".
Capaz de rir de si mesmo. "Quando eu era diretor da àpera de Berlim, regia duas ou três obras por semana e, certa vez, subi ao pódio, fechei os olhos, concentrei-me vendo toda a partitura passar por minha cabeça, e dei a entrada da Carmen, de Bizet", recorda. "Só que a orquestra tocou a Tosca!", continua. "Em segundos, recuperei-me do quase ataque cardíaco e lá fomos nós em frente com Puccini", ri. "Por isso, um aviso aos maestros: nunca deixe de saber com antecedência que ópera vai reger." Uma boa forma de não entrar em extinção.

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