O cotidiano de uma família é afetado pelo sumiço de alguns integrantes que desaparecem e ninguém sabe para onde foram e nem o porquê. Neste cenário, um casal assiste o mundo ao seu redor se desestruturar. A mulher procura entender o que está acontecendo, o marido a acompanha. Ela mergulha cada vez mais em uma angústia sem solução, até que tudo se transforma em algo completamente novo e estranho.

'Refúgio' mostra a desestruturação simbólica de um ambiente familiar
'Refúgio' mostra a desestruturação simbólica de um ambiente familiar | Foto: Otávio Dantas/ Divulgação

Este é o enredo de “Refúgio”, espetáculo indicado ao Prêmio Shell e que foi escolhido para abrir a Mostra Nacional de Artes Cênicas do Filo 50+1, evento que prossegue até o dia 5 de novembro. Escrito e dirigido pelo dramaturgo Alexandre Dal Farra, a montagem será apresentada nesta quinta-feira (24), às 20 horas, no Teatro Mãe de Deus.

A ideia do espetáculo é explorar em cena duas concepções diferentes de refúgio para discutir a desestruturação simbólica do cotidiano. “Tratamos da ambiguidade entre dois sentidos da palavra refúgio: uma opção de fuga de um lugar em que não se quer ou não se pode ficar ou como um espaço em que se fica para fugir de uma situação. É por causa desse sentido amplo que o refúgio se dá em um ambiente aparentemente cotidiano. Não se trata de uma guerra ou algo destrutivo, mas sim de uma espécie de desagregação sutil da estrutura do próprio cotidiano”, explica o autor.

Para criar esse ambiente, a iluminação e a cenografia transmitem ao espectador uma sensação de espera em um lugar entre dois mundos. “Essa casa vai diminuindo até chegar a prensar as personagens, até que eles quase não caibam ali. A música também ajuda a reproduzir essa sensação de crescente claustrofobia. O figurino traz peças de roupas reais, mas fora de contexto, como se elas não fossem usadas em um conjunto comum e natural”, acrescenta.

Na trama de “Refúgio”, nada se explica completamente. A linguagem lacunar apresentada pelas personagens não se deve às suas características psicológicas, mas a uma indefinição objetiva da própria realidade. A peça dialoga com o cinema 'noir', o teatro do absurdo de Samuel Beckett e os filmes de suspense de Alfred Hitchcock. “O público não consegue perceber de forma clara do que está sendo falado. Foi um processo intencional porque percebi que o território de debates de ideias mais explícitas estava ficando muito estreito, raso e sem profundidade. Então achei mais interessante me direcionar para uma linguagem na qual as questões políticas não ficam tão evidentes”, afirma Dal Farra.

O dramaturgo afirma ter retomado a mesma estética que adotou na peça “Mateus”, com a qual ganhou o Prêmio Shell de melhor espetáculo em 2011. “Percebi que as pessoas estão quase infantilizadas em busca de posicionamentos nos quais possa se agarrar para dizer se concordam ou não. O público está ficando refém de coisas que quer ver e ouvir, carente de obras de arte criadas sem esse compromisso de agradar. 'Refúgio' dribla tudo isso, desvia dessas possibilidades de se tornar um discurso. Isso gera um raciocínio difícil e exige uma postura mais aberta, mais desafiadora e mais exigente. A peça oferece uma estética que não conclui nada, mas permite levar para sua casa e para sua vida questões em aberto, como se fosse um filme do qual você não sabe a moral”, enfatiza.

“Refúgio” estreou em junho de 2018 no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, e foi indicada ao Prêmio Shell de Teatro nas categorias Melhor Dramaturgia e Melhor Atriz para Fabiana Gugli, que na montagem contracena com os atores Marat Descartes, André Capuano, Carla Zanini e Clayton Mariano.

A Mostra Nacional de Artes Cênicas – FILO 50 +1 é realizada pela Atrito Arte Artistas e Produtores Associados, com patrocínio da Prefeitura de Londrina, por meio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura), e em parceria com a Palipalan Arte e Cultura e Universidade Estadual de Londrina. "Normalmente, este é um evento que integra a programação geral do Filo, mas neste ano foi desmembrado em um período distinto do restante da programação do evento. Esperamos que o público prestigie essa mostra, pois ela reúne importantes espetáculos locais e nacionais ", afirma Christine Vianna, diretora da Atrito Arte.

Serviço:

Espetáculo “Refúgio”, de Alexandre Dal Farra (SP)

Quando – Quinta-feira (24), às 20 horas

Onde - Teatro Mãe de Deus (Av. Rio de Janeiro, 670)

Quanto – R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

Pontos de venda – Loja Ciranda e www.sympla.com.br

Classificação indicativa: 14 anos

mockup