George, o último da espécie solitária não por opção, mas por risco de extinção. Essa seria, em resumo, a triste história de uma tartaruga. Macho gigante, de 90 anos, pesando cerca de 200 quilos, é o último exemplar de uma espécie rara, natural da Ilha Pinta. George, como é chamado, vive há 30 anos em cativeiro, num cercado na Estação Charles Darwin, para onde foi levado no início década de 70.
Os cientistas e guias do Parque Nacional se afeiçoaram ao bicho e o transformaram num símbolo da resistência ao triste fantasma do extermínio, que ronda esses grandes quelônios terrestres, primos dos nossos domésticos jabutis. De hábitos pacíficos, são vegetarianos e literalmente viraram sopa de marinheiros no passado.
O relato do bispo do Panamá, Tomas de Berlanga, um dos primeiros viajantes a chegar às ilhas, durante um naufrágio, no início do século 16, indica tanta abundância desses animais que seria possível atravessar uma pequena ilha de ponta a ponta pisando apenas sobre os seus cascos, sem colocar os pés na areia em nenhum momento. ''Encontramos tartarugas tão grandes que podem carregar um homem sobre as costas,'' escreveu o clérigo, em carta ao rei Carlos V, da Espanha.
Especialistas calculam que existiam pelo menos 250 mil espécimes em todo o arquipélago. Hoje, não ultrapassam 14 mil. São considerados os mais avantajados do planeta, com cascos que alcançam cerca de um metro de altura. As maiores podem pesar até 300 quilos.
Uma das razões do alto valor que essas tartarugas gozavam entre os viajantes do mar, principalmente piratas e baleeiros, residia na sua capacidade de viver mais de um ano sem água nem comida. Não só a carne ainda permanecia macia e saborosa após longo período, como também rendia até 4,5 quilos de uma ''gordura clara e pura como manteiga, e de aroma suculento'', como descreve um marinheiro do Essex, o baleeiro destruído pelo cachalote branco, fato real que inspirou Melville a escrever Moby Dick.
O extermínio foi acelerado por causa da preferência dos navegadores pelas fêmeas, de carne mais macia e também, por vezes, carregadas de ovos. Os porões das embarcações levavam até quatro toneladas de tartarugas em cada abastecimento que faziam, na rota para as Ilhas Marquesas. Viajavam empilhadas como pedras. Os pesquisadores da Estação Científica Charles Darwin não mediram esforços para incrementar a reprodução sexual de George. Mas a campanha esbarrou num obstáculo: a falta de fêmeas naturais da mesma ilha. O bicho foi estimulado por mais de um ano por uma bióloga, que o alimentou com mamão papaia e sais minerais, tocando em sua cauda carinhosamente, exercitando-o para o acasalamento.
Quando o julgaram preparado, introduziram em seu recinto duas fêmeas da Ilha Isabela, a porção de terra mais próxima da Ilha Pinta. George chegou a flertar, mas não conseguiu produzir esperma suficiente para expandir seus genes e livrar-se do estigma da extinção.

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