REFLEXOS DO CÁRCERE
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de dezembro de 2001
Zeca Corrêa Leite<br>De Curitiba 
No momento em que o leitor passa os olhos por estas linhas, o condenado William da Silva Lima, 59 anos, amarga sua condição de presidiário. Está há dez anos em Bangu 3 e não se sabe se ele planeja (ou está executando) mais uma fuga. Eterno inconformado com sua condição escreveu um livro publicado tempos atrás, que agora está novamente nas livrarias, relançado pela Labortexto Editorial: ''Quatrocentos Contra Um: Uma História do Comando Vermelho''.
O livro não tem inocentes, as histórias que permeiam as páginas são um contínuo rolar de águas escuras, tensas, pesadas. Não há lirismo. Porém, mesmo com a secura do texto, percebe-se a qualidade do trabalho. Silva Lima escreve melhor que muito candidato a escritor. E como é a figura central das histórias contadas quando não, o protagonista tudo aquilo que ele relata traz o cheiro e as cores da realidade.
É um duro relato do dia-a-dia das prisões, e quando está a caminho do fim vem a história de como surgiu o Comando Vermelho. O assunto não merece tratamento relevante do autor como se imagina, por estar no subtítulo da obra. Silva Lima foi um dos criadores do comando, ou ''falange'', na linguagem dos presos, mas segundo seu argumento a finalidade do movimento era o de propiciar uma vida um pouco melhor aos internos.
Não era uma organização, ele afirma, ''mas, antes de tudo, um comportamento, uma forma de sobreviver na adversidade. O que nos mantinha vivos e unidos não era uma hierarquia, nem uma estrutura material, mas sim a afetividade que desenvolvemos uns com os outros nos períodos mais duros das nossas vidas. Como fazer nossos carcereiros (ou mesmo a sociedade) acreditarem nisso?'', escreve Lima.
Segundo o presidiário, a primeira vez que a denominação apareceu em relatórios foi num documento assinado pelo capitão PM Nelson Bastos Salmon, então diretor do presídio da Ilha Grande, em fins de 1979: ''Após os assassinatos de setembro de 1979, quando foi quase totalmente exterminada a Falange do Jacaré, a Falange da LSN ou Comando Vermelho passou a imperar no presídio da Ilha Grande e a comandar o crime organizado intramuros em todo o sistema penitenciário do Rio''.
William da Silva Lima explica que na prisão ''falange quer dizer um grupo de presos organizados em torno de qualquer interesse comum''. A troca pela palavra ''comando'' não foi por acaso: em linguagem militar comando denomina centro ativo. A cor vermelha, aqui, assume a propriedade de um adjetivo ''que desperta velhos e mortais reflexos em policiais militares''.
A história corrente de que a organização surgiu do encontro entre presos políticos com os comuns também não procede, conforme o livro. William Lima reclama dos presos políticos ao contrário daquilo que historicamente acontecia, os intelectuais e subversivos mantinham-se à parte nas prisões, numa espécie de isolamento, evitando contatos com os demais detentos. As leis que pesavam sobre uns, não valiam para outros.
Até onde flui inteiramente a verdade, fantasia ou o mascaramento, para justificar as ações, é difícil de dizer, mas a indigesta realidade mostrada por William traz o mau cheiro histórico dos calabouços. Bangu 1 é um deles, descrito por Lima como ''caixote térmico de cimento e ferro, no calor ferve o corpo, no frio congela''. Nas mínimas celas ''para não enlouquecer, o preso fica andando de um lado para o outro, num gesto contínuo, para se perceber ainda vivo''. ''Tem preso que se encontra naquele inferno há mais de 11 anos'', escreve.
Mortes, fugas espetaculares, esperanças, assassinatos arquitetados de lado a lado policiais e prisioneiros , reflexões, assaltos: o mundo em ''Quatrocentos Contra Um'' é só tensão. A escrita angustiada de William Lima traz sempre a sombra das grades. Pois aos 59 anos, 34 dos quais passados nesses cubículos, esse homem pergunta:
Quantas centenas de prisões terão de ser construídas até os poderosos compreenderem que precisam construir escolas, precisam dividir benefícios?
Quatrocentos Contra Um: Uma História do Comando Vermelho, de William da Silva Lima. Prefácio de Percival de Souza. Relançamento da Labortexto Editorial 136 páginas. Preço do livro: R$ 17,00.


