O argentino Daniel Burman realiza com ''O Ninho Vazio'' (veja a programação de cinema na página 2) uma nova aposta que o confirma como um dos principais cineastas de seu país na atualidade. Desde o começo do filme ele convida o espectador a participar de um jogo em que há um tom de estranhamento, um clima raro no qual ocorrem coisas singulares em cada cena.
Este jogo é montado através do cinquentão Leonardo, escritor e dramaturgo famoso. Está casado com Marta, com quem teve três filhos. Ele chegou a uma idade em que a vida de certa forma o aborrece. Interessado em outras mulheres mais jovens, não suporta os amigos de Marta, que falam sobre sua obra ou pedem que opine sobre textos que escreveram. Leo fica sabendo que a filha vai passar a noite fora de casa pela primeira vez, e com o namorado. Ele se senta e anota idéias que lhe vêm à cabeça para uma possível nova obra. ''Um homem e uma mulher flutuam no mar. Estão mortos ?''
O tempo passou para a dupla central de personagens. Os filhos do casal estão indo embora, ou para casar ou estudar, independentes afinal. Marta decidiu retomar os estudos universitários que deixou para se tornar disponível ao casamento e aos filhos. E Leo teoricamente se dedica a escrever, mas está vivendo na plenitude uma crise existencial à beira dos 60. Fantasia com a jovem dentista que o atende, e é dominado pelo ciúme que tem de Marta. Logo é vitimado pela insegurança. E o resultado é a ''síndrome do ninho vazio'', segundo a bula da psicanálise - aquela revoada filial em busca da autonomia, andar com as próprias pernas, cortar de vez o cordão.
Hábil observador, Daniel Burman trabalhou em cima de moderna crônica de costumes dos ótimos ''O Abraço Partido'' e ''Direito de Família'' (exibido ano passado no Cine Com-Tour/UEL). Aqui, ele dá um passo adiante ao contar uma história com esta mesma ênfase nos costumes familiares, mas adotando um peculiar e provocativo tom inverossímil, que é o conturbado ponto de vista simultaneamente realista e ficcional de Leonardo. Como resultado deste mix, Burman fez não apenas uma crônica sobre atribulações de um intelectual na maturidade como ainda acrescentou uma instigante, sofisticada reflexão sobre a criação artística, resultante dos conflitos e angústias do ser humano.
Burman é sempre bom nesta dissecação da célula familiar, vista como instituição imprescindível para o desenvolvimento do indivíduo e ao mesmo tempo como uma voraz geradora de problemas, com soluções muito difíceis. No filme há o convívio, às vezes desequilibrado, entre elementos mais dramáticos e aquele toque de suave amabilidade (com menos humor, desta vez) muito próprio do cineasta. Estupendos Oscar Martinez e Cecília Roth à frente do elenco.

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