Reflexões sobre a arte na modernidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Nelson Sato <br> <br> Reportagem Local 
É de lei, entre artistas inconformistas, lançar questões desafiadoras ao mundo. A mineira Letícia Marquez, radicada em Londrina desde 1976 (descontando-se um período em que morou em Curitiba), vem há tempos depurando suas reflexões sobre o papel da arte e do artista no mundo contemporâneo.
No ano passado, realizou uma série de palestras direcionadas a professores da rede pública de ensino com o objetivo de despertar-lhes uma nova consciência sobre as relações entre arte e educação. O projeto, intitulado ''Arte na Educação do Novo Milênio'', completa-se agora com a abertura de uma exposição e o lançamento de um livro acompanhado de DVD no Museu de Arte - tudo com patrocínio (parcial) do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
O evento será amanhã, às 19 horas, inaugurando o calendário de atividades do Museu. A exposição consiste de duas instalações - ''Transgêneses'' e ''Híbridos''. A primeira reúne 10 peças confeccionadas em técnica mista com a utilização de materiais diversos como papel machê, ferro, alumínio e resina. Na montagem, os objetos simbolizam seres que viajam no espaço. Na base dos suportes, tochas de fogo evocam metáforas.
Inédita em Londrina, a obra foi mostrada em 1998 na Galeria Brasil Telecom, em Curitiba. ''O trabalho apresenta uma mistura dos elementos animal, homem e máquina. É uma obra aberta, cheia de símbolos, que oferece múltiplas possibilidades de interpretação como toda obra de arte contemporânea. Quando a produzi, estava vivendo o ritual da passagem de milênio e repensando paradigmas. Essa transição não acabou, ainda estamos passando por ela'', diz.
A outra instalação, ''Híbridos'', marca sua fase atual reunindo sete objetos e cinco quadros feitos em técnica mista com a utilização de materiais como madeira, relevo, giz de cera, pastel e lápis de cor. Remontando à Mitologia Grega e aos saberes dos primórdios da civilização, os quadros apresentam-se com os títulos ''o grande Saber'', ''o grande Desejo'', ''o grande Olhar'', ''o grande Vôo'' e ''o grande Poder''. Inscritas numa série de telas, frases de pensadores como Nietzsche e Jung complementam a montagem.
''Essa instalação é uma continuidade da outra'', explica a artista. ''Nesta obra trabalho com os elementos humano e animal levantando questões relacionadas às atuais investigações científicas que se caracterizam por hibridismos, como as pesquisas genéticas, as clonagens, os transgênicos, etc. Proponho reflexões sobre as pesquisas que estão criando novas espécies. Os objetivos são construtivos? Estão servindo para melhorar os homens e sua relação com a natureza?'', pergunta ela.
Transformações
Letícia acredita que a acelerada transformação do mundo não está sendo acompanhada pelo Brasil. ''Somos a 6º economia do mundo, mas estamos na 53 posição no ranking do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que avalia o aprendizado os alunos em diversos países do mundo. Estamos em descompasso. Nosso modelo de Educação está defasado. Nunca teremos competitividade no mundo com nossos jovens despreparados, desprovidos de capacitação intelectual'', assinala.
Ela atribui papel fundamental aos educadores neste novo mundo em mudança constante. ''Hoje em dia, é impossível pensar o ser humano fatiado'', sublinha. ''Temos que desenvolver a totalidade do homem, promover o trânsito entre a razão e o inconsciente. Precisamos potencializar a imaginação, a fantasia e a criatividade. É o que China está fazendo agora. Simultaneamente precisamos valorizar o pensamento, a reflexão, a capacidade de interpretar as coisas. Juntar os dois lados. A internet não oferece isso: ela fornece informação, mas não formação. Esse papel cabe ao orientador, ao educador. Ao artista, cabe ajudar na produção de reflexões''.
Leticia vê Londrina como um microcosmo do descompasso do País. ''Sucessivos políticos de diferentes partidos já passaram pela Prefeitura e nunca promoveram uma política cultural abrangente na cidade. Só temos um museu de arte, não temos sequer um grande teatro. É só comparar com Curitiba para ver o quanto estamos atrasados. Penso em meu neto de 5 anos e penso no que fiz - como profissional de minha área - para deixar-lhe uma cidade melhor. O que fizemos, o que estamos fazendo? Meu sonho é fazer a pequena Londres se tornar uma grande Londrina'', afirma.
'Ser em Trânsito'
O livro que integra o projeto aborda essas questões numa longa entrevista concedida ao jornalista Felipe Melhado. O volume, intitulado ''Ser em Trânsito'', traz encartado um DVD com o documentário em curta-metragem ''Letícia Marquez: forja à Força'', dirigido por Bernardo Faria (filho da artista) e cuja equipe contou com Felipe Melhado (roteiro e produção), Edson Vieira (direção de fotografia), Jota Oshiro (assistente de fotografia), Dilan Gama e José Marcus (captação e montagem), Suellen de Oliveira (assistente de captação) e Gustavo Daher (trilha sonora).
O curta faz uma expedição pelo universo estético, simbólico e intelectual da artista. Conquistou o troféu Udihara de Melhor Filme (Júri Popular) na Competitiva Londrinense da 13 Mostra Londrina de Cinema, realizada em dezembro passado. O livro estará à venda amanhã a R$ 30. A maioria dos exemplares será distribuída gratuitamente às escolas da rede municipal de ensino.
Serviço:
- Abertura de exposição e lançamento de livro da artista Letícia Marquez
Quando - Amanhã às 19h
Onde - Museu de Arte de Londrina (Rua Sergipe, 640)
Quanto - Entrada gratuita
Informações - (43) 3337-6238 e 3334-3977


