Reflexões debaixo da sombrinha
Londrina só fica misteriosa, como a cidade de "Crepúsculo" ou a Curitiba de Dalton Trevisan, quando a chuva cessa e vem a neblina
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sábado, 12 de setembro de 2026
Londrina só fica misteriosa, como a cidade de "Crepúsculo" ou a Curitiba de Dalton Trevisan, quando a chuva cessa e vem a neblina

Os avisos da Defesa Civil são inadiáveis. Na quarta-feira à noite já anunciavam chuvas pesadas para Londrina e região, 40mm previstos para nossa cidade na quinta-feira, cerca de 164mm de quarta a domingo para a região.
Na manhã de quinta, pego o celular disposta a escrever a crônica ainda na cama, entre cobertores encontro uma intimidade com as palavras que às vezes falta se me levantar para ligar o notebook. Imaginação é libertar as ideias olhando a chuva pela janela.
Entre as cidades permanentemente chuvosas, celebrizadas na literatura, lembro-me da eterna Macondo, cidade fictícia da Colômbia no livro de Gabriel García Márquez. Mas Oscar Wilde também evocou a chuva para escrever "O Retrato de Dorian Gray" e Forks, em Washington (EUA), sempre nublada, é a capital dos vampiros na saga "Crepúsculo", de Stephenie Meyer.
Sem esquecer que Dalton Trevisan, nosso vampiro mais próximo, também viveu e escreveu na chuvosa Curitiba.
Mas chuva em Londrina, mesmo em ano de El Niño, não tem muito mistério. As manhãs no Calçadão agregam mais sombrinhas do que guarda-chuvas e penso que as mulheres se abrigam mais que os homens.
Talvez elas sejam mais felizes debaixo de sombrinhas vermelhas, azuis, listradas com várias cores, de bolinhas, com estampa de onça como a da Renata, que foi chamada na esquina por uma amiga por causa do acessório fashion: "ah! É de oncinha!"
Já os homens seguem sérios com seus guarda-chuvas pretos.
Mas nem tudo é lúdico neste ano de El Niño no qual tempestades, tornados, enchentes e desabamentos, com mortes, já estão ocorrendo, inclusive no Paraná. O que parecia distante fica cada vez mais perto, a Terra cobra a fatura por tanto descaso ambiental.
Londrina só fica misteriosa, como a cidade de "Crepúsculo" ou a Curitiba de Dalton Trevisan, quando a chuva cessa e vem o fog ou a cerração, como dizia minha mãe.
Quando a neblina aparece minha imaginação cresce e vejo assombrações britânicas e velhos caciques caingangues atravessando a avenida Paraná, sem guarda-chuvas.
Alguns estão ali para plantar uma civilização, alguns para se despedir de outra, e a chuva cai, enquanto a Defesa Civil divulga mensagens avisando que Londrina, no ano do El Niño, pode ficar igual a Forks ou a Macondo até fevereiro e estamos apenas em setembro.
O jeito é providenciar mais livros e sombrinhas.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


