Reflexão sobre a música do século 21
WILMAR KLEIN Reflexão sobre a música do século 21 ReproduçãoO compositor francês Bernard Parmegiani, pesquisador dos sons da natureza e da natureza dos sons Revisito, quase trinta anos depois da primeira leitura, um livro de Umberto Eco que, entre os últimos anos da década de 60 e os primeiros da de 70, foi bastante popular nos meios acadêmicos no Brasil e que antecede a produção ficcional que transformou Eco num escritor comercialmente bem-sucedido. Refiro-me à Obra Aberta, cuja primeira edição italiana data, se não me engano, de 1962. Neste livro hoje um tanto esquecido, porém, sob muitos aspectos, ainda atual e instigante , o autor se propõe a pesquisar a reação da arte e dos artistas (das estruturas formais e dos programas poéticos que a elas presidem) ante a provocação do Acaso, do Indeterminado, do Provável, do Ambíguo, do Polivalente ... uma provocação à qual a música de vanguarda do século 20 procurou responder e da qual dão testemunhos, em maior ou menor grau, as obras de compositores como John Cage, Luciano Berio, Henri Pousseur, Edgard Varese, Pierre Henry, Luc Ferrari, Karlheinz Stockhausen, Iannis Xenakis, Bernard Parmegiani, para citar uns poucos dentre dezenas de nomes importantes. E valeria acrescentar: importantes e impopulares. Por quê? A leitura de Eco sugere uma resposta à pergunta acima. O escritor italiano observa que a arte contemporânea (e a música não é exceção) se vê às voltas com a Desordem; que não é a desordem cega e incurável, a derrota de toda possibilidade ordenadora, mas a desordem fecunda, cuja positividade nos foi evidenciada pela cultura moderna: a ruptura de uma Ordem tradicional, que o homem ocidental acreditava imutável e identificava com a estrutura objetiva do mundo ... Ora, a ruptura dessa Ordem tradicional não é feita senão lentamente e enfrentando enorme resistência. Por isso mesmo, não se espere pelos menos nas primeiras décadas do próximo século que a maioria das pessoas deixe de preferir a música dotada de melodia, ritmo, harmonia e passe a preferir a música abstrata e dissonante. Ainda assim, as experiências da vanguarda do século 20 vão, aos poucos, sendo assimiladas, esboçando um perfil para a música do século 21. A incorporação do ruído e dos sons sintéticos, da improvisação, das paisagens sonoras, da exploração de timbres e texturas baliza hoje um caminho que, nos próximos anos, deverá ser trilhado cada vez mais pelos músicos e compositores. Obviamente, uma tal tendência não eliminará o espaço destinado à tradição Bach, Mozart, Beethoven, por exemplo e, infelizmente, também não eliminará a banalidade musical mais rasteira e comercial, ou seja, todas aquelas coisas com as quais você se depara quando liga o rádio ou a TV. - - - The Brain Uma dica para quem curte música experimental: digite www.brainwashed.com e clique em Brain. O boletim homônimo disponível no site, editado semanalmente desde 1998, agora oferece audioclipes com faixas de álbuns recentes lançados na Inglaterra e nos EUA. Na edição desta semana, faixas de Neurometrik, do Electonic Eye (um dos muitos projetos de Richard H. Kirk, ex-integrante do legendário grupo Cabaret Voltaire), The Inhazer Decline, da banda de improvisadores eletroacústicos Volcano The Bear, Moon Oppose Moon, do Unto Ashes, Intervention, de David Coulter, e de Frames of Teknicolor, disco que reúne o compositor James Bobbo e a vocalista do Unto Ashes, Kate Messick. Vale a pena conferir.





