Curitiba - Pela primeira vez, o espetáculo ''Os Sete Afluentes do Rio Ota'', direção de Monique Gardemberg para a peça do dramaturgo canadense Robert Lepage, terá uma apresentação sem interrupções. No Rio de Janeiro, onde a montagem estreou, as quase cinco horas de encenação eram divididas em duas partes: a primeira fase apresentada no início da semana e a segunda reservada para os finais de semana. Nada que comprometesse o entendimento da peça, conforme garante a diretora e cineasta.
''Mas estamos felizes por apresentar o espetáculo de uma só vez, acho que a montagem ganhou com isso'', complementa Monique. ''Os Sete Afluentes'' tem a sua segunda e última apresentação no Festival de Teatro de Curitiba, hoje, às 21h30, no Guairão. A peça acontece em sete épocas distinas. ''É uma reflexão sobre a última metade do século 20 e acontecimentos como a bomba de Hiroshima e o holocausto'', conforme resume.
Como era de se esperar, a montagem ganhou vultuosidade no festival tanto pelo elenco formado por atores globais (são 14 pessoas, incluindo Giulia Gam, Beth Goulart e Maria Luíza Mendonça) quanto pela duração inusitada. Mas ''Os Sete Afluentes'' tem detalhes bem mais significativos para oferecer. A começar pelo texto escrito por um dos maiores encenadores contemporâneos. Robert Lepage já foi sensação da sétima edição do FTC com a peça ''Needles and Opium''. Tem o pé inteiro no teatro experimental, mas ''Os Sete Afluentes'' é uma montagem peculiar, uma saga que mostra personagens desde os cinco até os 65 anos de idade.
''Quando vi o espetáculo em Nova York em 1986 me apaixonei e quis trazer para o Brasil'', revela. A diretora tinha duas opções, trazer o mesmo espetáculo de Lepage ou fazer uma adaptação. Ao fazer a segunda escolha, adotou uma encenação mais alegre que a do canadense. ''A dele é um pouco mais fria porque os canadenses são mais frios que os brasileiros'', compara.
Na direção, Monique também lançou mão da sua experiência como cineasta e editou as cenas como no cinema, buscando a síntese de cada diálogo. ''Não acredito nesse teatro onde as pessoas projetam as vozes e deixam os espectadores assustados. Em ''Os Sete Afluentes'', o público encontra uma interpretação bem mais próxima do cotidiano, bem mais natural'', garante opinando que não se trata de uma coreografia ou imitação da montagem anterior, mas de uma recriação da dramaturgia de Lepage.
A peça é dividida em sete capítulos diferentes, que acontecem em diversas partes do mundo e em épocas distintas. O primeiro capítulo é chamado de ''Fotografias (Hiroshima 1945-1946); o segundo ''Dois Jeffreis'' acontece em New York, em 1965. O terceiro O Casamento (Amsterdam) se passa em 1985, os seguintes são ambientados na Polônia (1943) e Hiroshima, em 1986, intitulado ''Espelho'' e seguido de ''As palavras'' (Osaka, 1970); ''Entrevista'' (Hiroshima, 1995) e a ''Tempestade'', em Hiroshima, em 1999.
Encenar os sete capítulos com apenas dois intervalos parece não assustar o elenco. A atriz Lorena da Silva ressalta que no teatro ''o tempo é subjetivo'' e o público vai poder ver uma experiência única. ''Para isso é preciso ver com outros olhos'', aconselha, sugerindo que o público abandone os preconceitos para assistir à montagem.
Além dos ''Sete Afluentes'', a Mostra Contemporânea do FTC traz hoje a última apresentação do monólogo ''Loucura'', da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico; ''Belarmino e o Guardador de Ossos'', dirigida por Amauri Tangará, e ''Orgia'', direção de Roberto Lage para a obra de Pasolini (confira programação). ''Mamãe não pode saber'', dirigida por João Falcão que aparece no material de divulgação do festival foi cancelada há mais de um mês por motivos não divulgados.

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