Nelson Sato
De Londrina
Desconhecida do grande público, Mônica Salmaso está lançando seu segundo disco. Ela foi eleita a ‘‘cantora do ano’’ pela Associção Paulista de Críticos de Arte
Uma voz contida, cool, de lady. Um repertório impecável, tratado com esmero e delicadeza intimista. Mônica Salmaso, com seu Voadeira, vai fornecer farto assunto nos círculos musicais ao longo desta e das próximas temporadas.
Cantora e disco impressionam. Voadeira é o segundo álbum-solo de Mônica. Está chegando às lojas pela gravadora Eldorado como um dos ‘‘troféus’’ por ela ter vencido o 2º Prêmio Visa de MPB/Edição Vocal, no mês de maio, no qual concorreu com mais de 1200 candidatos superando-os na votação do júri e da platéia.
A gravação do disco foi um dos prêmios – os outros foram R$ 40 mil e um automóvel Gol. Mônica anda nas nuvens. Na última quarta-feira foi eleita a ‘‘cantora do ano’’ pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), que contemplou também Lenine (melhor disco com ‘‘Na Pressão’’), Zeca Baleiro (cantor), Ira! (banda), Jupiter Apple (compositor), Rebeca Matta (revelação) e Lobão (personalidade).
Ao ser entrevistada pela Folha, tinha acabado de receber a notícia. Mônica, 28 anos, é uma das expoentes do circuito independente paulistano. Faz parte de um grupo de artistas que sobrevive à margem das badalações do grande mercado e que através de minúsculos selos vem oxigenando o panoramara musical brasileiro.
‘‘Os artistas estão deixando de se queixar sobre as imposibilidades do mercado’’ – diz ela. ‘‘Os músicos pararam de se lamentar para arregaçar as mangas e criar seus próprios caminhos. Há um movimento bastante visível nesse sentido, que está fortalecendo um mercado paralelo de selos, shows e formação de público. É um tipo de produção que funciona, que é viável e que não depende das vias convencionais de divulgação. Estamos reclamando menos agora e produzindo muito mais’’.
Seu novo disco foi produzido por Rodolfo Stroeter. Está destinado a arrancar comentários seguidos de exclamações. Não há pontos que sobressaem a outros. É todo o conjunto que se revela preciosista: o refinamento dos arranjos, a escolha de repertório e as reinterpretações que renovam as gravações originais (‘‘Cara de Índio’’, de Djavan, vira outra canção na releitura da cantora).
O material inclui três composições inéditas: ‘‘Dançap钒, de Mario Gil e Rodolfo Stroeter, ‘‘Neguinho do Pastoreio’’ e ‘‘Juparan㒒, ambas de Joyce em parcerias com Paulo César Pinheiro e Silvia Sangirardi. Mônica convence ao cantar ritmos diversos. Vai da valsa ao xote, do samba ao maracatu e à toada sem perder o fio vocal trocando de ‘‘roupa’’ a cada registro.
‘‘Os ritmos diversos dão cores diferentes para o disco’’ – explica ela. ‘‘Mas nunca passou pela minha cabeça essa coisa de ser ou não eclética. Eu não penso ‘ah, eu vou gravar um valsa, um bolero, um baião etc’, para depois escolher as músicas. Minha prioridade é achar um grupo de músicas que represente aquilo que eu quero dizer. O que está sempre em primeiro plano é a mensagem, o que a letra diz’’.
Antes de Voadeira, Mônica lançou os CDs Afro Sambas e Trampolim. O primeiro, gravado em parceria com o violonista Paulo Bellinatti, revisitou a obra de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Saiu pelo selo Atração Fonográfica em 95 e ganhou distribuição no exterior no ano seguinte pela gravadora norte-americana GSP.
O segundo, que teve participação do percussionista Naná Vasconcelos em várias faixas, chegou às lojas no ano passado pelo selo Pau Brasil. Mas antes da estréia em disco próprio, ela integrou o grupo Notícias de um Brasil, montado pelo produtor e compositor Eduardo Gudin e com o qual chegou a gravar um álbum.
Emprestou a voz também para diversos trabalhos incluindo uma série de três CDs de música infantil da dupla Paulo Tatit e Sandra Peres, além do CD Luz do Cais do mineiro Mário Gil. No ano passado, gravou um disco com a Orquestra Popular de Câmara. ‘‘Eu comecei como convidada, mas depois de tanto me chamarem resolveram me oficializar como integrante’’ – conta ela.
Com a Orquestra, fez várias apresentações ao longo desse ano, incluindo shows nos Estados Unidos. Notem que todos os artistas e discos aqui citados jamais frequentaram rádios, televisões ou (salvo raríssimas exceções) páginas da imprensa cultural. É possível que até mesmo Mônica, eleita a grande cantora da temporada, permaneça distante dos holofotes. Felizes os privilegiados que acompanham sua lenta ascensão.

As faixas de ‘‘Voadeira’’
- Dançapé (Mario Gil e Rodolfo Stroeter)
- O Vento (Dorival Caymmi)
- Valsinha (Vinicius de Moraes e Chico Buarque)
- Canto em Qualquer Canto (Ná Ozetti e Itamar Assumpção)
- Silenciosa (Fátima Guedes)
- Beradêro (Chico César)
- A Violeira (Tom Jobim e Chico Buarque)
- Senhorinha (Guinga e Paulo César Pinheiro)
- Cara de Índio (Djavan)
- Juparanã (Joyce e Paulo César Pinheiro)
- Neguinho do Pastoreio (Joyce e Silvia Sangirardi)
- Minha Palhoça (J. Cascata)
- Ilu-Ayê / Terra da Vida (Cabana e Norival Reis)
- Ave Maria no Morro (Herivelto Martins)
- Canário do Reino (Carvalho e Zapatta)

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