São Paulo, 22 (AE) - A diretora Agnieszka Holland diz que "A Herdeira" soa mais contemporâneo hoje do que há 20 anos
quando ela leu pela primeira vez "Washington Square", título original do romance de Henry James que dá origem ao filme. Justifica: James seria como uma espécie de Balzac americano, obcecado em destacar a relação das pessoas com o dinheiro. Hoje, a sociedade seria muito mais materialista do que há duas décadas. Daí o interesse.
Pode ser. Mas a excelência do relato (muita gente boa o considera dos melhores de James, ao lado de A Volta do Parafuso) deve também contar para alguma coisa. Afinal, é a segunda adaptação do livro, o pioneiro tendo sido William Wyler, que, em 1949, escalou para os papéis principais Olivia de Havilland e Montgomery Clift.
A história é a da desajeitada Catherine Sloper (Jennifer Jason Leigh, na versão atual), moça sem atrativos e rica. àrfã de mãe, que morrreu quando ela nasceu, Catherine vive com o pai (Albert Finney), médico de fortuna e moralmente rígido, comme il faut. Catherine conhece o garotão Morris Townsend (Ben Chaplin) por quem se apaixona. Mas ele não tem dinheiro. O conflito entre o pretendente a genro e o Dr. Sloper é mediado pela alcoviteira tia Lavinia (Maggie Smith). Não parece uma história sem nenhum interesse aparente?
Pois pode acreditar que não é bem assim. Essa velha crônica de pretendentes pobres a moças ricas é contada com grande senso de nuances. Diz muito sobre a sociedade norte-americana (e inglesa) da época de James. Diz muito, também
sobre a nossa sociedade, como afirma Agnieszka com razão. E não apenas porque a intolerância do pai tenta impedir uma união feliz. Mas, principalmente, porque, de forma paradoxal, o Dr. Sloper pode ter razão e talvez Morris, de fato, não passe de um aventureiro. Ou seja, num mundo regido pelo dinheiro, Catherine está só e ameaçada por todos os lados. Uma pobre menina rica. Texto respeitado - Há alguns fatores a sustentar esse filme meio convencional em sua feitura. A homogeneidade do elenco conta muito. Mas o principal deles é a própria arquitetura do texto, respeitada em sua essência na adaptação. James foi um personagem singular. Natural de Nova York, naturalizou-se inglês e morreu em seu país de adoção.
Em obras importantes como "Retrato de uma Senhora", "Os Bostonianos" e "Os Embaixadores", toca em um ponto considerado pela crítica o fundamental de sua trajetória de escritor: a comparação aguda entre a América e a Europa. Para ele, a América era a novidade, o frescor, diante do mundo envelhecido e sofrido da Europa. No entanto, escolheu a Inglaterra para viver.
É singular também que a ação de "A Herdeira" se passe em Nova York. Nela, diferentemente do que se possa pensar, não prevalece uma mentalidade nova e aberta. Ao contrário, o esquematismo psicológico dos antigos hábitos europeus passa, por osmose ou contágio, ao novo continente. Sloper é tão cioso da superioridade de sua casta quanto um cavalheiro britânico de sua época o seria.
Fosse Morris uma doce figura, munido das melhores intenções, e a história se limitaria ao maniqueísmo de sempre - moça rica quer casar-se com rapaz pobre e bom, mas o pai malvado opõe-se. Felizmente, texto e filme estão anos-luz adiante desse tipo de infantilismo. A figura dúbia de Morris revela rapidamente sua função dramática. James (e Agnieszka revelou perfeita consciência disso) tem um "protagonista" muito claro em mente: o interesse material, que rege a sociedade, se opõe aos desejos dos indivíduos que a compõem.
Por isso, não haverá felicidade sobre a Terra para a menina rica. Ela carrega sua fortuna como um fardo. Nem mesmo quando livra-se dessa opressão dourada sente-se mais liberada para fazer o que quer. Há como que um determinismo perverso na condição de classe, que acompanha a criatura do berço à cova e impõe suas condições. Por isso, o tom de "A Herdeira" é basicamente pessimista, o que não chega a ser novidade, considerando-se a proveniência do original.
É pena que Agnieszka, que acerta ao notar a atualidade de "Washington Square", se esqueça que a renovação dos procedimentos de adaptação não desfigura um bom original. Pelo contrário, revigora-o. Mas ela optou por uma direção convencional, o que dá ao filme um peso (no mau sentido do termo) que ele não precisaria ter nem o espectador carregar.

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