Referência maternal
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terça-feira, 24 de dezembro de 2002
Roberta Brasil<br> TV Press 
Zezé Motta sabe muito bem em que momento deixou de encarnar personagens sensuais como a eterna Xica da Silva, do filme homônimo de Cacá Diegues , e passou a viver tipos mais ''respeitáveis'', como ela mesma diz. Foi quando encarou, pela primeira vez, um papel de mãe, há 15 anos, no filme ''El Mestizo'', realizado na Venezuela pelo uruguaio Mário Handler. ''Levei um susto com o convite. Vi que dali por diante só me chamariam para fazer as mães ou, no máximo, as tias encalhadas'', lembra, soltando uma sonora gargalhada. Desde então a atriz tem interpretado mães de todos os tipos, até mãe-de-santo. Atualmente, encarna a dedicada Nadir mãe do médico Carlos, de Sérgio Menezes de ''O Beijo do Vampiro''. ''É uma personagem séria e que combina muito comigo'', garante a atriz que, no passado, protagonizou diversas pornochanchadas.
Aos 58 anos, Zezé tem cinco filhas adotivas. O espírito maternal, segundo ela, às vezes extrapola a vida real. Como aconteceu na novela ''Xica da Silva'', da extinta Manchete, em 96. A atriz foi convidada pelo diretor Walter Avancini para viver Maria, mãe de Xica papel que coube à Taís Araújo. No início, Zezé temia sentir ciúmes de Taís pela jovem estreante encarnar a personagem que ela viveu no cinema 20 anos antes e que marcou sua carreira. ''Mas logo vi que era bobagem. Acabei me afeiçoando muito à Taís e o Avancini era tão exigente que nem me dava tempo para pensar besteira!'', conta Zezé - que em 2003 volta a encarnar Xica da Silva no desfile do Carnaval carioca.
Como é viver uma personagem séria e contida como a Nadir, e ao mesmo tempo ainda ser lembrada como a sensualíssima Xica da Silva?
É muito interessante. Na verdade, a Nadir tem muito mais a ver comigo hoje em dia do que a Xica. Afinal, sou uma senhora! Eu não sou mais daquele jeito expansivo e espevitado dos primeiros anos de carreira. Mesmo assim, é impressionante como ainda tenho essa imagem para a maioria das pessoas. Há muitos anos venho interpretando personagens sérias na tevê. Mães de família de respeito, como a Nadir... Mas ninguém esquece a Xica!
O lado maternal é mesmo o forte da Nadir...
E o meu também. Eu nunca pari, mas tenho cinco filhas de coração. Acho que este sentimento é uma herança dos meus pais... Sou de origem humilde. Meu pai, não o de sangue mas o que me criou, era músico e motorista de ônibus. Eu trabalhava para ajudar em casa. Quando decidi ser atriz, ele e minha mãe acharam que era loucura. Mesmo assim, sugeriram que eu guardasse todo o meu dinheiro para pagar o curso de Teatro. Tive pais realmente iluminados! Devo a eles a mãe que sou e a atriz que me tornei.
Você já fez 15 novelas e 27 filmes. Como avalia sua trajetória?
Fui uma das primeiras atrizes negras a despontar. No início, era eu, a Léa Garcia e a Ruth de Souza. Na tevê, meus papéis sempre foram mais comportados. Agora, no cinema eu só aparecia nua! Na época da pornochanchada, fiz alguns filmes terríveis que, se pudesse, compraria todas as cópias. Mas também fiz bons trabalhos, como ''Quilombo'' e, é claro, ''Xica da Silva'', os dois de Cacá Diegues.
Nas filmagens de ''Xica'', você quase se afogou quando o barco virou na represa de Diamantina...
Nossa, foi horrível. O que me salvou foram as roupas de época, que não me deixaram afundar. Mas o cinema sempre me deixa algumas marcas... Agora mesmo, filmando ''Quanto Vale Ou É Por Quilo'', do Sérgio Bianchi, cortei minha perna numa cena de briga com o (Antonio) Abujamra. Neste filme, faço uma escrava alforriada que reproduz a postura do dominador branco e usa o todo seu dinheiro para comprar escravos também. É um filme que traz novos elementos históricos para se compreender a situação do negro no Brasil.
Paralelamente à carreira de atriz, você desenvolve o Centro de Informação e Documentação de Artistas Negros - o Cidam...
Exatamente. Quando as coisas começaram a dar certo para mim, eu passei a cobrar dos autores e diretores a razão dessa quase invisibilidade do artista negro. E eles me diziam que não conheciam muitos atores negros! Então fundamos a ONG... Hoje, temos mais de 500 atores cadastrados e 380 com dados disponíveis no nosso ''site''.


