Rede Vida vai discutir a qualidade da programação da TV; telespectador poderá opinar
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Flávia Guerra 
São Paulo, 10 (AE) - O telespectador insatisfeito com a qualidade dos programas da televisão brasileira poderá reclamar na própria TV. O programa "Viver Brasil", que deve estrear em abril na Rede Vida, vai reunir especialistas para debater a programação da TV brasileira e, mais que isso, estender essa discussão aos telespectadores. Para o publicitário Wagner Bezerra, que criou o programa com Heloísa Dias, o momento é mais que oportuno.
"Em 50 anos de televisão, essa discussão nunca foi oficializada no Brasil", diz. "Está mais do que na hora de ser preparado um código de ética para controlar a programação", completa. Até agora um dos poucos meios oficiais de crítica e análise da programação tem sido a linha "Voz do Cidadão" (0800 612211), criada pela Subcomissão de Rádio e TV da Comissão de Educação do Congresso Nacional. Outro exemplo é "Guardando o Lixo na Sala?", da TV Comunitária de Brasília.
Apresentado desde 1998 por Marco Aurélio Carvalho, o programa traz reportagens e entrevistas com psicólogos, educadores e políticos que tratam a questão da influência da televisão sobre o comportamento das crianças. "Apesar de uma conquista, nosso programa só alcança 60 mil famílias e precisamos de ajuda financeira até para comprar fitas", conta Carvalho.
Bezerra também ressalta que, apesar de já haver vários grupos que discutem a qualidade e a ética dos programas, eles ainda estão pouco organizados e articulados. "Além disso, há pouco interesse no que a sociedade tem a dizer", ressalta. "Além de discutir, nosso principal objetivo é ouvir o público". Recursos - O publicitário, que também escreveu o livro "Manual do Telespectador Insatisfeito" (Summus Editorial, 130 págs., R$ 17,80), espera apenas ajuda financeira para pôr seu projeto no ar. "Já acertamos a transmissão pela Rede Vida e quem serão os convidados; só falta a parceria", afirma. Para ele, a razão para criar o programa foi a mesma que o levou a escrever o manual. "Vi meu filho imitando o strip-tease que viu em uma novela e percebi que o maior educador do País é a televisão".
Para que as novas gerações não sejam educadas por programas como os do Ratinho, Xuxa e filmes de violência, Bezerra resolveu fazer o que muitos brasileiros já fazem: acompanhar e reivindicar o direito de opinar sobre a programação televisiva do País. Sem censura - Para o publicitário, é importante deixar claro que não se trata de censura, mas de controle e diálogo. "A censura existe em uma ditadura e esse caso é o oposto; queremos abrir a discussão a todos, até mesmo a quem faz a TV no Brasil", conta. "É muito difícil definir o que é bom senso e é por isso que é tão importante discutir antes de tomar qualquer decisão". Essa discussão deve partir da sociedade.
"Afinal, ninguém é dono de TV no Brasil, mas possuidor do direito de transmissão; esse direito pertence a nós". E cita casos de sucesso de controle da programação: "Na França, se a emissora desrespeita esse código de ética, além de pagar multas, pode até perder esse direito e, nos Estados Unidos, há comissões que fiscalizam as concessões públicas".
A idéia de Wagner Bezerra é estender a discussão feita por grupos de especialistas, como Marta Suplicy e Lalo Leal Filho, e educadores, para a população. "Seremos o primeiro programa a dar voz à sociedade", garante. O formato já está definido. "Será um programa de auditório, com cerca de 60 pessoas e haverá dois debatedores e um mediador", adianta.
Os temas serão debatidos e escolhidos por uma comissão, de acordo com os fatos da semana. A cada programa, a reportagem vai entrevistar a população de uma cidade diferente. "Haverá também dois debatedores e um mediador; durante o programa, o público do auditório também vai poder dar sua opinião". Obra de referência - Além de discutir o conteúdo da programação, "Viver Brasil" deve abordar temas relacionados à Lei de Comunicação Eletrônica de Massa e o "Manual de Controle e Qualidade da Programação", cuja criação foi proposta às emissoras brasileiras pelo secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregori. "O Manual", que trata dessas e de outras questões sobre a regulamentação da TV brasileira, servirá de referência às discussões.
"O Manual é dividido em cinco capítulos: Regulamentação; Controle da Mídia; Critérios da Produção Televisiva; Regionalização, Identidade e Cidadania e TV versus Crianças e Adolescentes - A Educação como Novo Paradigma", explica o autor. O publicitário conta que ofereceu "Viver Brasil" a todas as emissoras de TV aberta, mas não obteve resposta de nenhuma. "O que considero uma pena, pois seria bom para a própria emissora abrir esse debate", diz ele, que acrescenta: "Tenho certeza que a audiência existe porque há muita gente interessada".
Prova disso é a quantidade de cartas que Bezerra recebeu quando divulgou o lançamento de seu livro. A exemplo do que fez quando preparava o "Manual", ele está aceitando sugestões por e-mail ([email protected]) ou por telefone (225-7920). "Chegaram mais de 300 cartas e e-mails para mim de pessoas que também sentem falta de um veículo em que possam discutir esses temas".
Apesar da transmissão já estar garantida, o "Viver Brasil" ainda precisa de parceiros financeiros - o custo mensal é de R$ 60 mil -, mas Wagner está otimista: "Esse é um tema que interessa a toda a sociedade e sei que vou encontrar um parceiro". E completa: "A briga por público não deve implicar a perda da qualidade; muitos esquecem que a principal meta da televisão brasileira, de acordo com o Artigo 221 da Constituição
é educar".


