Recuperando a malandragem do breque
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de abril de 1999
Ranulfo Pedreiro 
Enquanto a onda pagodeira apresenta fragilidades no tom monocórdio de seu discurso, longe dos holofotes do sucesso alguns sambistas arraigados à originalidade do ritmo mostram que a criatividade ainda não se extinguiu. Para acentuar a contramão mercadológica, Nei Lopes optou por um gênero que está desaparecendo por falta de talentos: o legítimo samba sincopado ou de breque.
O disco, que saiu pelo CPC-Umes, vai ainda mais longe, e recupera o estilo das gafieiras, dos bailes de salão, com arranjos de big band, antigamente muito utilizados por Jamelão. O lançamento chama-se Sincopando o Breque, e traz, no acompanhamento, músicos como Wilson das Neves na bateria e Jorge Hélder no baixo, emprestados, segundo Lopes, de Chico Buarque.
Além dos arranjos elaborados por Cláudio Jorge, amigo de longa data de Nei Lopes, o cantor ainda traz parcerias com João Nogueira e Zé Luiz, entre outros. Na voz de Lopes, o samba de breque continua com a manemolência bem-humorada de uma letra que completa a melodia com frases sobressalentes, quase faladas.
Comecei a me irritar com essa coisa repetitiva, tudo samba de uma nota só. O disco foi uma forma de reagir a essa monotemática mostrando as várias possibilidades que o samba tem, revela Nei Lopes, em entrevista à Folha2.
O trabalho acentua a perenidade de uma arte que segue a linha dos sambistas de velha guarda, compromissados com a qualidade independente das oscilações da indústria fonográfica. Eu resolvi fazer um trabalho de recuperação do samba de breque, que é uma das formas mais ricas e sofisticadas, não é qualquer um que faz bem, ressalta.
Para Nei Lopes, Sincopando o Breque também muda o sentido que sua carreira, ligada à temática da africanidade, vinha tomando: O racismo brasileiro reage à exposição dessas questões, vem sempre um argumento contrário para não se tocar no assunto. Criou-se então a imagem de um velho ranzinza e muito sério, eu não sou nada disso.
Acentuando a conotação do samba de breque como reflexo do cotidiano carioca, Nei Lopes oferece crônicas como Baile no Elite - parceria com João Nogueira - em que num sonho revisita um baile movido a trombone, sax e pistom, comandado pela Orquestra Tabajara. Também há uma homenagem a Valter Alfaiate em Samba na Medida e malandragem destilada em Feição de Boboca, composta com Dauro do Salgueiro.
O samba de Nei Lopes não ganha espaço em programas de televisão, mas encontra um público entre admiradores da velha guarda e jovens à procura de alternativas que escapam ao lugar-comum: Ou são antigos ouvintes ou são universitários que contestam a ordem econômica, que vivem em ambientes de melhor percepção cultural. Isso é um reflexo da repetição forçada pelo mercado. Se você força de um lado, estoura do outro.
Sincopando o Breque é um disco bem estruturado, com qualidade rara, feito na medida para quem procura, no mar de mesmices da indústria fonográfica, um refúgio prazeroso. O lançamento tem distribuição nacional pela Eldorado.


