Enquanto a onda pagodeira apresenta fragilidades no tom monocórdio de seu discurso, longe dos holofotes do sucesso alguns sambistas arraigados à originalidade do ritmo mostram que a criatividade ainda não se extinguiu. Para acentuar a contramão mercadológica, Nei Lopes optou por um gênero que está desaparecendo por falta de talentos: o legítimo samba sincopado ou de breque.
O disco, que saiu pelo CPC-Umes, vai ainda mais longe, e recupera o estilo das gafieiras, dos bailes de salão, com arranjos de big band, antigamente muito utilizados por Jamelão. O lançamento chama-se ‘‘Sincopando o Breque’’, e traz, no acompanhamento, músicos como Wilson das Neves na bateria e Jorge Hélder no baixo, ‘‘emprestados’’, segundo Lopes, de Chico Buarque.
Além dos arranjos elaborados por Cláudio Jorge, amigo de longa data de Nei Lopes, o cantor ainda traz parcerias com João Nogueira e Zé Luiz, entre outros. Na voz de Lopes, o samba de breque continua com a manemolência bem-humorada de uma letra que completa a melodia com frases sobressalentes, quase faladas.
‘‘Comecei a me irritar com essa coisa repetitiva, tudo samba de uma nota só. O disco foi uma forma de reagir a essa monotemática mostrando as várias possibilidades que o samba tem’’, revela Nei Lopes, em entrevista à Folha2.
O trabalho acentua a perenidade de uma arte que segue a linha dos sambistas de velha guarda, compromissados com a qualidade independente das oscilações da indústria fonográfica. ‘‘Eu resolvi fazer um trabalho de recuperação do samba de breque, que é uma das formas mais ricas e sofisticadas, não é qualquer um que faz bem’’, ressalta.
Para Nei Lopes, ‘‘Sincopando o Breque’’ também muda o sentido que sua carreira, ligada à temática da africanidade, vinha tomando: ‘‘O racismo brasileiro reage à exposição dessas questões, vem sempre um argumento contrário para não se tocar no assunto. Criou-se então a imagem de um velho ranzinza e muito sério, eu não sou nada disso.’’
Acentuando a conotação do samba de breque como reflexo do cotidiano carioca, Nei Lopes oferece crônicas como ‘‘Baile no Elite’’ - parceria com João Nogueira - em que num sonho revisita um baile movido a ‘‘trombone, sax e pistom’’, comandado pela Orquestra Tabajara. Também há uma homenagem a Valter Alfaiate em ‘‘Samba na Medida’’ e malandragem destilada em ‘‘Feição de Boboca’’, composta com Dauro do Salgueiro.
O samba de Nei Lopes não ganha espaço em programas de televisão, mas encontra um público entre admiradores da velha guarda e jovens à procura de alternativas que escapam ao lugar-comum: ‘‘Ou são antigos ouvintes ou são universitários que contestam a ordem econômica, que vivem em ambientes de melhor percepção cultural. Isso é um reflexo da repetição forçada pelo mercado. Se você força de um lado, estoura do outro.’’
‘‘Sincopando o Breque’’ é um disco bem estruturado, com qualidade rara, feito na medida para quem procura, no mar de mesmices da indústria fonográfica, um refúgio prazeroso. O lançamento tem distribuição nacional pela Eldorado.

mockup