Se fosse fácil traduzir uma obra literária de uma língua para outra, certamente já haveriam programas de computador específicos para fazê-lo. Ou então, contratar-se-ia qualquer pessoa que dominasse a outra língua. Mas, para traduzir um livro, mais do que converter palavras, é preciso saber avaliar o contexto em que a frase está sendo dita, o período histórico, preservar o estilo de escrita do autor e identificar todos os elementos culturais que a cercam.
''Um texto literário não pode ser traduzido como um documento. O tradutor tem que reconstruir na outra língua o que o autor está dizendo'', define o poeta Marcos Losnak, crítico literário da FOLHA e editor da revista Coyote (em cujas páginas costumam figurar traduções inéditas). Para essa reconstrução, o desafio maior é manter o conteúdo, transplantar a forma e ao mesmo tempo preservar o sentido.
Algumas adequações de terminologias sempre se fazem necessárias. Mas em que circunstâncias e até que ponto um tradutor pode interferir no texto original? ''Alguns termos, se você não recriar, não fazem sentido. Gírias, por exemplo, é preciso converter para que a pessoa entenda. E esses termos dependem do país, da língua, da época'', observa Losnak.
A recriação se faz ainda mais necessária na tradução de poemas, porque, neste caso, o sentido nem sempre está explícito nas palavras. ''É preciso escrever um poema novo em português, obedecendo o conteúdo, sendo fiel, sem desvirtuar do original, e principalmente fazer com que a tradução seja uma nova obra de arte'', define o poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes, que foi indicado ao prêmio Jabuti de melhor tradução pelo Folhas de Relva, de Walt Whitman, em 2004, e também já traduziu poesias de autores como Sylvia Plath, Laura Riding, Arthur Rimbaud e Roberto BolaÀo.
''Quando traduzo, estabeleço um diálogo com as culturas e línguas, e tento fazer com que isso transpareça na minha própria poesia'', afirma. Além de conhecer bem o idioma em questão e dominar o português, Lopes muitas vezes recorre a outras traduções. E pesquisa muito. ''Mergulho na vida do autor, leio toda a sua obra, biografia, estudos críticos, para funcionar como a pessoa que faz essa conexão, quase em um estado de alteridade''.

mockup