Recordar é viver?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de maio de 1999
Antônio Mariano Júnior 
Faça o seguinte: vá direto à faixa 12. Pronto? Então, curta, emocione-se com o que há de melhor e mais bonito em Reencontro, disco com que Evinha (lembram-se?) revisita alguns de seus sucessos. Sim, ela também entrou nessa de releituras para avivar entusiasmos de seus velhos fãs e, de quebra, dizer aos brasileiros que ainda está artisticamente viva. Mas voltando à linha de raciocínio inicial: a 12ª faixa é As Canções que Você Fez pra Mim (dos atualmente insípidos Roberto e Erasmo Carlos) em que Evinha deita de forma comovente seu canto e, consequentemente, se mostra uma intérprete fabulosa.
A interpretação de Evinha é tão admirável que a gente até deixa passar batido o fato de que o arranjo não é lá aquelas coisas. E o que é mais importante: ela consegue pôr terra abaixo a tese de que Maria Bethânia havia dado a versão definitiva para As Canções... em disco antológico e homônimo, de 95. Ah, sim as demais faixas... Hum, hum... Bem, são sucessos que receberam roupagem atuais. Atuais numas porque se for para pegar pesado, o estofo sonoro dado em Reencontro é, no geral, pasteurizado, recheado de clichês assinados por Gerard Gambus, marido de Evinha, e ex-diretor musical da orquestra de Paul Mauriat (da qual Evinha foi crooner por uns bons tempos). Então, diante dessa informação, dá para se ter uma boa idéia de como as músicas vêm envolvidas.
O que merece atenção, portanto, é o canto de Evinha. Ela é uma cantora que faz bom uso da aparente pequena voz que Deus lhe deu. Por mais que tenha maneirismos de crooner (e as de Paul Mauriat e de Ray Connif são uns casos sérios), Evinha consegue demonstrar personalidade própria.
Por esse prisma torna-se possível ouvi-la cantando pela enésima vez o seu Casaco Marrom. Por outro lado, algumas canções são verdadeiros testes para a memória de uns e outros agora trintões ou quarentões, outrora adolescentes ou mocinhos.
Alguém por um acaso se lembra de cor e salteado de Teletema (que embalou o amor de Regina Duarte e Cláudio Marzo na novela Véu de Noiva, de 71) ou mesmo Cantiga por Luciana (com a qual a cantora venceu o Festival Internacional da Canção de 69)? Não? Pois as duas músicas foram incluídas em Reencontro. Um aviso: as gravações originais são mais saborosas.
Teto de Louça (Maria Thereza Guinle-Renato Correa), com seu solavanco soul, é outra boa surpresa do disco. Reencontro, sem dúvida, vai encontrar eco na alma dos mais saudosistas. Só deles. E não são poucos. Mas até mesmo os saudosistas no fundo reconhecem que nem só de passado vive uma grande artista.


