Record lança dia 27 Criando Kane, coletânea de Pauline Kael18/Mar, 16:59 Por Luiz Zanin Oricchio São Paulo, 18 (AE) - Orson Welles deveria dividir a autoria de "Cidadão Kane" com Herman Mankiewicz, o autor do roteiro? Essa é a pergunta de "Criando Kane", o principal ensaio da coletânea homônima da crítica norte-americana Pauline Kael, que será lançada no Brasil pela Record no dia 27. O volume com 368 páginas, compreende outros nove ensaios, além daquele que lhe dá título: "Fantasias do Público do Cinema de Arte", "O Indomável", "Brutalizadores do Cinema", "A Realização de O Grupo", "Filmes na Televisão", "Uma Rajada de Balas", "Do Futuro do Cinema", "O Homem das Cidade dos Sonhos: Cary Grant" e "Por que os Filmes São Tão Ruins? - ou, Os Números". Primeiro, a origem dos textos. Pauline explica que, quando crítica da "The New Yorker", às vezes escrevia matérias que passavam o espaço a elas destinado. William Shawn, que dirigia a revista, sugeriu que ela deixasse os artigos atingir o "tamanho natural". Viraram, então, ensaios; e a existência dela, portanto, deve-se a um editor inteligente. O texto principal, "Criando Kane", explica a autora, foi pensado como apresentação à primeira publicação do roteiro de "Cidadão Kane". Foi crescendo e terminou publicado pela "The New Yorker" em duas edições consecutivas. Segundo, o estilo. Pauline Kael, como toda escritora que se preza, é, acima de tudo, uma assinatura, uma maneira de se expressar. Há quem não goste e prefira a elegância e a argumentação cerrada a essa prosa desabrida, máscula, de certa forma. O leitor tem sempre impressão de que Pauline escreve o que pensa, sem eufemismos. Em geral, é verdade, e, antes de se tornar famosa, ela sofreu não poucos problemas por causa da franqueza. Começou escrevendo para a McCalls, que se dizia "uma publicação familiar" e, em sua divisa, se definia como "a revista que une". Pois bem, Pauline estreou com uma nota cáustica sobre "A Noviça Rebelde" e, no dia seguinte, saiu pela mesma porta pela qual tinha entrado. Em seguida, mostrou entusiasmo demais numa crítica de "Uma Rajada de Balas", e, por isso, o semanário liberal "New Republic" rejeitou-a. Sorte dela porque mandou o texto em seguida para William Shawn, que o publicou na "The New Yorker". Shawn fez mais. Tornou Pauline crítica estável da revista, dividindo a coluna de cinema com a delicada Penelope Gilliat. Pauline escreveu na revista por 25 anos. Classificou o trabalho como "o melhor emprego do mundo" em outra coletânea de críticas intitulada "For Keeps" (Para Sempre), esta ainda sem tradução no Brasil. Na introdução, Philip French descreve com muito sabor o pas-de-deux complicado entre Pauline e Penelope nas páginas da "The New Yorker": "Pauline e Penelope eram um número de dupla certa vez comparado por um observador britânico a Stanley Kowalsky e Blanche Dubois em "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams; a durona e popular Pauline entrando nos filmes com uma agressividade de botequim, a delicada e excêntrica dama Penelope adejando em torno dos seus temas com antenas tremulantes." Mas Pauline não era (hoje, está aposentada) apenas uma apologista do estilo "deixa que eu chuto" aplicado à crítica cinematográfica. Era, sobretudo, mulher culta, com quatro anos de estudo de filosofia nas costas e uma extraordinária capacidade de fazer dos filmes aquilo que eles, em tese, são: fatos culturais, relacionáveis a outros fatos culturais e, portanto, dignos do interesse de toda pessoa instruída e não apenas de cinéfilos. Essa é ainda uma lição para os críticos de cinema, brasileiros até mesmo, que continuam se conformando à tarefa de orientadores de consumo, distribuindo estrelinhas como um guia de hotéis e restaurantes. O principal ensaio do livro foi polêmico no tempo. Quando parte dele saiu em 1971, Welles respondeu com uma carta irada de mil palavras ao "Times", de Londres. Compreende-se. Pauline adora o filme, mas não esconde o que julga algumas das fragilidades dele. Acha artificial, um freudismo de botequim, o "macete de rosebud" - a palavra que Kane pronuncia ao morrer e se torna o fio condutor na reconstrução da vida dele, tentada por um repórter. Nota uma falha lógica no roteiro: não havia ninguém no quarto com Kane na hora em que morreu e, portanto, não se poderia saber da existência do tal rosebud. Chama de "número de velho sentimental" o desempenho de Joseph Cotten no hospital, onde é interrogado sobre o ex-amigo Charles Foster Kane. Enfim, são detalhes, e ela é a primeira a reconhecer que "Cidadão Kane" é, no mínimo, uma grande obra de arte, como poucas vezes o cinema pôde produzir. A polêmica não está tanto em relativizar a perfeição de "Kane", mas dividir os méritos do extraordinário sucesso estético. Pauline lembra que foi Herman Mankiewicz quem propôs a Welles uma "história prismática" - contada de vários pontos de vista, sobre um big shot das comunicações. No caso, William Randolph Hearst, magnata e dono da então mais poderosa cadeia de jornais, revistas e rádios dos EUA. Acontece que Mankiewicz havia conhecido Hearst na intimidade e era o único capaz de escrever um roteiro com tantos pontos de contato com a vida real do milionário. Mas, acontece também que, por uma questão de estratégia jurídica, Welles empenhou-se em distanciar o personagem de Hearst. Temia, com razão, que Hearst conseguisse embargar o filme, ou destruí-lo, o que quase aconteceu. Tudo isso é conhecido. Menos conhecido é o papel fundamental de Mankiewicz na realização de "Kane". Pauline nota que, sem ele, simplesmente "Kane" não existiria. Mas também admite que, sem a "mágica exuberância" que vem da direção de Welles, "Kane" tampouco seria o que é. Enfim, tenta estabelecer a idéia de colaboração num domínio onde prevalece a primeira pessoa do singular. Pauline pode ter razão ou não, dependendo do ponto de vista que se escolha. Uma noção muito arbitrária de autoria tende a ignorar o caráter coletivo de um filme. Por outro lado, o grande diretor funciona mesmo como um regente. Escolhe o melhor daquilo que os colaboradores podem oferecer, determina a direção a ser seguida pelo trabalho, dá a palavra final, impõe um estilo, como uma impressão digital. No entanto, a presença do texto de Mankiewicz no resultado final de "Kane" parece ser mesmo muito forte. No caso do artigo de Pauline, significa dar o justo valor a um escritor de recursos, que terminou esquecido e morreu cedo, vítima de um alcoolismo descontrolado. Uma das melhores coisas do ensaio "Criando Kane" é o perfil traçado de Mankiewicz, um talento afogado sob um Mississipi de uísque. Leitura indispensável. "Criando Kane" é de longe o ensaio mais importante do livro. Mas os demais não deixam de ser interessantes. Há um perfil ousado de Cary Grant, em "O Homem da Cidade dos Sonhos" que procura analisar as razões do sex appeal do ator. O segredo de Grant, para Pauline, é que ele não procura "impor a sua superioridade de macho". Apenas se insinua. Ele deixa para as mulheres a iniciativa da abordagem. É um sedutor matreiro, não um conquistador agressivo, como o grosseirão Clark Gable. A origem do ensaio é uma insatisfação. Pauline diz, com razão, que a imprensa dita especializada conta tudo a respeito de um ator, responde a todas as perguntas, menos àquela que interessa: o que os torna tão eficientes em alguns papéis e tão ridículos em outros? Esse artigo é altamente recomendável para repórteres que cobrem cinema. Nos outros ensaios, o que se vê é a Pauline Kael de sempre, instigante, inteligente, sem papas na língua, ou melhor, na pena. Parece pessimista em relação ao futuro do cinema, pois entende que os estúdios caíram na mão de negociantes, sem nenhuma vocação para o métier. Quem vai lhe tirar a razão? Em "Lixo, Arte e Cinema", dirige-se com franqueza aos jovens, que hoje em dia todo mundo (leia-se: o mercado) se empenha em badalar: "A tarefa do crítico é necessariamente comparativa e os jovens não sabem de fato o que é novo. E, apesar de todo o papo dos meios de comunicação sobre a esperteza dos jovens, eles são incrivelmente ingênuos em relação à cultura de massa..." Alguma objeção? "Em Fantasias do Público em Relação ao Cinema de Arte", Pauline é grosseira com um filme como "Hiroshima, Meu Amor", dizendo que jamais entendeu por quê os escritores acreditam que a repetição "cria uma atmosfera lírica ou aumenta a profundidade do significado. Minha reação é simplesmente: Tudo bem, já entendi isso da primeira vez, vamos em frente com isso." Em uma palavra, não tem paciência com o filme, ou o acha chato, o que dá no mesmo. Pauline Kael não foi uma crítica tão arguta ou sofisticada quanto, digamos, André Bazin, James Agee, Serge Daney ou o nosso Paulo Emílio Sales Gomes. Philip French resume bem: "Ela escreve com paixão, às vezes fúria, mas também com alegria, e da perspectiva do americano arrogante, provinciano." Paixão e provincianismo. São seus limites. Mas também os ingredientes que dão vida ao texto. Conclusão: não é preciso concordar com Pauline para se gostar dela. É mesmo o oposto. Às vezes, tudo fica mais interessante quando se briga com ela porque, então, as opiniões dela funcionam como estimulantes para se desenvolver o raciocínio oposto. É um pequeno milagre desses textos cheios de energia.

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