Os autores Ricardo Dalai e Marcia Paganini, mais a ilustradora Cassia Naomi Nakai: trio paranaense com talento em contar boas histórias
Os autores Ricardo Dalai e Marcia Paganini, mais a ilustradora Cassia Naomi Nakai: trio paranaense com talento em contar boas histórias | Foto: Gina Mardones

De uma pessoa para outra, atravessando gerações, a história perde e ganha um tanto no caminho. Algumas ficam anos perdidas à espera do resgate para uma nova adaptação. Este é o caso dos cinco contos selecionados para o livro Histórias bem-contadas: contos da tradição popular brasileira, de Marcia Paganini e Ricardo Dalai, que a partir de suas memórias e estilos, publicam versões das histórias trazidas por imigrantes europeus no início do século 20. Com dose de humor e mundo fantástico, a literatura infantojuvenil lançada no sábado (20), na loja Ciranda, foi publicada pela editora Madrepérola e ganhou o toque ilustrativo de Cassia Naomi Nakai, mostrando que o conjunto paranaense tem talento em contar boas histórias.

Um homem que engana a morte, uma princesa se apaixona por um bicho. As histórias marcadas pela tradição oral ganham vida nas palavras de dois autores experientes que unem conhecimento literário ao didático. “Nós dois temos uma parceria antiga com os livros didáticos e, com nosso apreço pelas histórias, tivemos a ideia de recontar essas histórias populares que a gente tem na lembrança da infância”, aponta Paganini. “A escrita faz parte da gente, até na questão do tipo de linguagem, o público que a gente pretende, isso vem do didático também”, acrescenta Dalai.

A seleção dos contos foi pautada na afetividade dos autores, que planejaram o livro físico após quatro anos da experiência com o e-book. Nesta versão mais amadurecida, houve seleção criteriosa para que as histórias seguissem fio temático, resultando em uma obra atual e original para as novas gerações. “São obras registradas por grandes folcloristas, como Sílvio Romero e Câmara Cascudo, mas devido à temática e à cultura, foram perdendo certa popularidade, como muitas histórias. Até o Malasartes, que é um conto conhecido, hoje uma criança não sabe quem é”, argumenta o autor.

Recuperar essas histórias da tradição oral para um livro atual é como resgatá-las do esquecimento, porém, fica o desafio em adaptá-las sem perder as origens em uma história bem-contada, como manda o título. “Foi o que a gente tentou fazer, colocar uma linguagem bem afetiva, bem escrita, trabalhar o texto, a escolha do vocabulário, dos recursos linguísticos e não perder de vista a questão oralidade, porque elas vieram de uma contadora de dentro de casa, que na maioria das vezes não era escolarizada, mas sabia contar. Então a gente deixou a história bem contada dessa maneira”, defende Paganini.

ILUSTRAÇÕES

Para acrescentar ao ato lúdico da leitura, as ilustrações de Cassia Naomi Nakai trazem a fantasia dos contos sem ultrapassar os limites pessoais da imaginação. “Eu li as histórias e foram novas para mim também, vi as pesquisas dos autores e tentei imaginar alguns personagens da forma que a criança iria pensar, mas só alguma coisa, para não direcionar a imaginação”, conta Nakai. As ilustrações não são coloridas e seguem o padrão orgânico do design pensado na essência rudimentar das histórias originais, com papel poroso e nuances de envelhecido para dialogar o objeto livro à arte e texto.

A obra é voltada ao público infantil, entre ensino fundamental I e II, mas um livro não se limita, os adultos também podem se deliciar com as histórias que tiveram os detalhes perdidos na memória dos antepassados ou até mesmo vivenciar a novidade de quem não teve a oportunidade de conhecê-las. Dessa forma, as histórias podem voltar ao ciclo de adaptações e serem recontadas com novas características. “Que eles tenham esse material para usar para contar às crianças e, lendo uma vez, podem recontar sem o livro, recriando, reproduzindo à maneira deles”, sugere a autora. Os planos é que a obra o seja a primeira peça de outras novas edições, ampliando aos contos africanos, orientais, indígenas e outras culturas.

SERVIÇO

Livro: Histórias bem-contadas: contos da tradição popular brasileira

Autores: Marcia Paganini e Ricardo Dalai

Ilustrações: Cassia Naomi Nakai

Páginas: 58

Editora: Madrepérola

Valor: R$ 30,00 (aproxim.)

Onde comprar: Site da editora Madrepérola, Loja Ciranda e Amazon.

FRAGMENTO DO LIVRO

A Princesa de Bambuluá

Os mais antigos contam que, no caminho entre duas importantes cidades, havia uma gruta onde viajantes, surpreendidos pelo anoitecer brusco ou por tempestades repentinas, protegiam-se dos perigos. Contam também que essa gruta era assombrada pelo lindo rosto de uma moça, que suplicava aos homens visitantes que a desencantassem. Como viam somente a cabeça da moça, todos fugiam de medo e deixavam sozinho o rosto choroso e magoado da Princesa de Bambuluá.

Os poucos viajantes que se aventuravam a tentar salvá-la desistiam facilmente das duras provas que tinham de enfrentar. Até que um dia, Sol a pino, um rapaz conhecido como João Amarelo ali parou para descansar. Ao ver o rosto suplicante, ele, que não tinha muitas opções de destino, pensou: “Que tenho a perder? Estou cansado de ser feio, fraco e faminto”.

Desencante-me, forte e belo jovem – pediu novamente a visagem.

Ao ouvir aquela voz melodiosa, o rapaz não vacilou: iria ajudá-la.

O que devo fazer? - perguntou.

Vá até o alto daquela serra, encontre a árvore mais alta e fique sob sua sombra.

Só isso? - perguntou, descente.

Sim. Mas é preciso que suporte qualquer sofrimento e cansaço embaixo da árvore, até que todo o encanto seja desfeito.

Como João estava faminto, pediu que comece alguma coisa antes de subir a serra. A Princesa consentiu e ofereceu ao rapaz um farto banquete. Após se empanturrar de comida e bebida, o moço se despediu e pegou estrada.

(...)

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