Reconhecimento mesmo!!
Francelino França
De Londrina
O filme Limite, realizado por Mário Peixoto na década de 30, ganha status de cult e é relançado em vídeo e livro. Além disso, foram criados um site e um CD-ROM com informações sobre a obra e o diretor
O filme Limite, de Mário Peixoto, teve sua primeira exibição no dia 17 de maio de 1931. Nessa pré-estréia, o público nada entendeu, a crítica e os realizadores reagiram friamente. Nunca foi exibido comercialmente e o diretor Mário Peixoto jamais voltou a filmar. Na contramão da história, o filme tornou-se um cult, apesar de pouco assistido nesses 68 anos.
Paradoxalmente, Limite foi considerado o melhor filme brasileiro nos 100 anos da cinematografia nacional, numa enquete realizada pela Folha de São Paulo. A obra é tão complexa que merece diferentes apreciações. Um caleidoscópio do singular filme de Mário Peixoto está à disposição dos cinéfilos em forma de vídeo, CD-ROM (a ser comercializado brevemente), livro, site na internet e um arquivo com preciosidades do diretor.
Restaurado graças à iniciativa de Walter Salles e de Plínio S. Rocha, a obra foi lançada em vídeo pela Funarte. Há trechos, no entanto, que ficaram irremediavelmente perdidos, substituídos por letreiros explicativos. É no CD-ROM que se vê a dimensão do diretor. No livro Limite, Saulo Pereira de Mello evidencia a insólita organização das imagens. No site na internet (www.estacaovirtual.starmedia.com/tabu/960822/limiteá©_e.html), pode-se obter informações sobre a restauração da película e breves dados da obra de Mário Peixoto. Um canal é complemento do outro, para se compreender a dimensão do filme.
No Rio de Janeiro, a preservação e difusão da obra de Mário Peixoto é possível graças à produtora Videofilmes, onde se localiza o Arquivo Mário Peixoto, cujo responsável é o escritor Saulo Pereira de Mello. Antes de embarcar para Londres, onde vai pesquisar sobre a passagem de Mário Peixoto pela Inglaterra, Saulo reiterou: Limite é um dos maiores filmes do mundo. Nunca um filme foi tão fundo nas possibilidades da câmera e da edição.
No Arquivo estão depositados papéis doados pelo filho de Mário Peixoto, os arquivos pessoais sobre o filme pertencentes a Saulo Pereira de Mello e Plínio Sussekind Rocha. As visitas ao local devem ser agendadas com antecedência (0+código da operadora+21+556-0810). A visitação pública é permitida somente às terças e quintas. O endereço da Videofilmes é: Praça Nossa Senhora da Glória, 46. Rio de Janeiro (RJ).
O vídeo
ReproduçãoTrês pessoas - um homem e duas mulheres - estão num barco à deriva, completamente conformados com o destino. A primeira mulher fugiu da prisão, mas não encontrou a paz. A outra teve como destino um casamento fracassado com um pianista bêbado. Oprimida, também foge. O terceiro ocupante do barco, viúvo, teve um caso de amor com uma mulher casada e leprosa. Não resistindo à situação, fugiu também.
No barco, a água acaba. Em meio ao desespero, eles avistam ao longe um barril. O homem salta no mar e desaparece. As duas mulheres se agridem. Em seguida, uma tempestade acontece e resolve a situação. Nas imagens do mar calmo está apenas a primeira mulher agarrada a um destroço. Imagem que nos faz refletir, quem não se sentiu à deriva, sem rumo e sem a quem recorrer?
Sob o ponto de vista de direção, Limite é esteticamente perfeito. Imagens ousadas, sem excessos, totalmente simétricas. Limite é alta-costura cinematográfica.
Limite. Direção: Mário Peixoto. Com: Olga Breno, Taciana Rei, Raul Schnoor. O vídeo pode ser encomendado na Funarte através do seguinte endereço: Av. Brasil, 2482. Rio de Janeiro (RJ). Cep: 20.930.040. Fone: (0+ código da operadora +21+ 580-3631). Preço: R$ 20,00.
O livro
A versão gráfica do mais aristocrático filme brasileiro foi realizada por Saulo Pereira de Mello, estudioso de Limite e da vida de Mário Peixoto. No livro, Mello traça um perfil do diretor, revelando sua ascendência rica, sem nunca ter precisado trabalhar. No fim da vida, Peixoto, já sem recursos, foi ajudado financeiramente pelo diretor Walter Salles.
Saulo Pereira de Mello situa o diretor no contexto nacional e internacional cinematográfico. A idéia do filme surgiu a partir da capa da revista Vu, em Paris: uma face feminina, de frente, os olhos fixos, tendo em primeiro plano mãos masculinas algemadas. Saulo destaca o refinamento estético, o domínio seguro do formalismo esmeradamente planejado e a meticulosa produção. Ele adjetiva Limite todo o tempo, seja para ressaltar o apurado senso plástico nos enquadramentos ou as delirantes manobras com a câmera.
Limite não se compreende como um filme tradicional. A montagem o faz único., observa. Nesse emblemático filme silencioso, como ressalta o autor do livro, não há similar em toda a cinematografia mundial, pois ele rompe completamente com o narrativo.
Limite, de Saulo Pereira de Mello, Editora Rocco, R$ 13,00
O CD-ROM
ReproduçãoO Laboratório de Investigação Audiovisual, órgão ligado à Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro, realizou um CD-ROM com a íntegra do mitológico filme Limite. Esse é um projeto inédito no Brasil, de acordo o professor de cinema Tonico Amâncio. Pode-se conhecer mais profundamente a biografia de Mário Peixoto, pesquisar e conhecer as análises dos idealizadores do CD-ROM. No link o filme pode-se obter imagens e informações da produção, do elenco e equipe.
No CD-ROM, destaca-se uma descrição textual do filme, as sequências e a trilha musical, incluindo a fascinante música tema de Erik Satie. No link análise é feita uma decupagem das imagens de todos os 518 planos do filme e comentários correspondentes. É por intermédio do estudo detalhado de cada plano que se verifica a genialidade de Mário Peixoto. Cada tomada é matematicamente simétrica, as escolhas dos planos são inovadoras e a direção de fotografia é soberba. São estudos de composição de imagens que valem por um mestrado em cinema. Por enquanto, o Laboratório de Investigação Audiovisual não está comercializando o CD-ROM.
Mais informações podem ser obtidas no Laboratório de Investigação Audiviosual. Rua Tiradentes, 148, Ingá - Niterói, RJ. CEP - 24.210.410. Fone (0+código da operadora+21+621-6261).





